As feiras e romarias são dois aspectos muito típicos da vida soci­al das nossas terras. Há épocas, principalmente, no mês de Agosto, em que elas se sucedem ininterruptamente.

Quem desejar conhecer o povo no seu falar, no traje, nas canções e danças, nos seus gostos e na sua alimentação, e não tiver tempo ou oportunidade de surpreender cada uma destas manifestações do seu viver nas cidades, vilas e aldeias implantadas por todo o país, concorra às grandes romarias e feiras anuais do Minho. Nas lindas manhãs, ou tardes de Verão, com as estradas e os caminhos cheios de gente e de animais para as feiras de gado, terão oportunidade de admirar os panoramas folclóricos em quase toda a sua pureza.

É essa curiosidade que caracteriza as Festas da Senhora d’Agonia em Viana do Castelo. Dias de Agosto acalmado. O sol brilha no azul puro dos céus, realçando pormenores da paisagem verde e húmida, que se desdobra e alarga à medida que saímos de Braga ou da Póvoa de Varzim, a caminho da Princesa do Lima.

O formigueiro humano que passa, alegre e barulhento e repassa, ao fim da tarde, após a passagem da procissão, do cortejo ou da festa do tra­je, ou pela noite adiante, depois do arraial, toma, por vezes, aspectos recreativos etnográficos de inolvidável beleza. É a mulher quem faz as honras da festa do trabalho e imprime aos ranchos as notas mais interes­santes de vida e de pitoresco com a sua indumentária regional, aliada à música agradável dos coros femininos, acompanhada dos ferrinhos e dos harmónios. O folclore minhoto é variado e sugestivo. A indumentária, o encanto e o colorido inconfundíveis do traje, dão-lhe, ainda, mais realce. A etnografia local tem, aqui, a sua expressão mais fiel.

O traje puro “à vianesa” mistura-se com as modalidades que nele se enxertaram, dando-nos variedades híbridas de coloridos belos e diferen­tes, conforme a situação das freguesia do concelho. Este vestuário real­ça os encantos naturais das lavradeiras, decora-as, e a sua alacridade condiz bem com a cor da paisagem que empresta cenário apropriado a todas as manifestações de alegria popular. O traje copia as tintas com que a natureza pintou as flores, o verde dos pinheiros e dos laranjais, o cin­zento das oliveiras, todas as cambiantes dos montes e dos prados. Apesar da influência do vestuário citadino e das modas de estação para estação, que a televisão nos mostra, e das diversas vicissitudes da vida adulterarem, lentamente, a maneira de estar, sabe-se que a antropologia da mulher do Minho continua a guardar e a mostrar o vestir de outras épocas, no conjunto com curiosíssimas danças.

Os ranchos folclóricos da região vianense despertam entusiasmo, alegria e saber em toda a parte onde se exibem. Animam as festas e paradas com garridice do seu porte, a policromia dos seus fatos e o frescor dos seus descantes e bailados regionais. Os viras, sobretudo o vira das ro­marias, as gotas, a tirana, o verde gaio, a rosinha, o regadinho, a chula e outras danças movimentadas e donairosas, com o seu acompanhamento musi­cal prendem e fascinam as pessoas por onde passam.

As noite de arraial na romarias minhotas são uma maravilha de luz e de denotações. É um espectáculo indiscritível e inolvidável. Uma multidão, aparentemente desordenada, mais identificada pelo mesmo desejo, aguarda, impaciente, a hora do fogo preso e do ar. É o verdadeiro ponto alto da noite! Os fogueteiros, através da pólvora, produzem artifícios gigantescos de alacridade e som.

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Viana do Castelo, a cidade encantada do Lima, fez da sua romaria a princesa de todas as festas do Alto Minho e de Portugal. São celebrações litúrgicas e pagãs, fidalgas e populares, com raízes profundas das fainas da pesca. A Senhora d’Agonia é a padroeira dos pescadores do mar, que nunca a esquecem, levando-a nos seus barcos às águas salgadas do oceano. No regresso, passeiam-na pelas ruas da Ribeira, distintamente atapetadas, e com adornos alusivos ao acto.
A procissão que percorre as principais ruas da cidade, encerra um ponto alto dos festejos. Após o acto litúrgico, na igreja da Senhora d’A­gonia, sai a procissão, com as autoridades locais e as diversas confra­rias e irmandades, luzindo suas bandeiras, pendões e galhadertes. A mai­or parte das promessas e dos ex-votos decoram-na. Os anjos oferecem a parte mais vistosa do importante cortejo religioso. São a figuração ale­górica de todo o recheio celestial, com motivos profanos à mistura, por exemplo, reis, pagens e guerreiros. Os andores são transportados, ao ombro, por homens ou mulheres, que vestem a rigor as roupas do seu trabalho.
Chama a atenção, ao passar o séquito, uma menina vestida de branco, terço na mão e coroa de rosas presa ao cabelo. A mãe, descalça, leva uma vela do tamanho da jovem embrulhada e atada a uma vara para não se torcer com o calor.
A assistência comenta, interroga-se:
– Vão cumprir uma promessa! – Informam pessoas que conhecem a situa­ção. – Foi a criança que a Senhora d’Agonia curou…

Nota: – Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acor­do ortográfico.