– Nós, as mulheres, após os quarenta anos, somos um exemplo de maturidade, porque a vida está, apenas, a começar, afirmava a Joaquina, a defender o seu ponto de vista.

– A partir desta idade, sabemos aquilo que queremos e tornamo-nos pessoas maduras. Fazia uma pausa, respirava fundo, como a querer ocultar um segredo, sorria, continuando, sempre pensei que o sexo pago era coisa para gente doida ou libertina.

Mas depois de ouvir a tua experiência – comentava com a amiga Lúcia – a ideia não me saiu da cabeça – sorriu, novamente – e na primeira viagem do meu marido não resisti àquela vontade de fazer arte… – Soltou uma gargalhada, desabafando:
– Pode-se comer bem em casa, mas torna-se agradável apreciar comida saborosa, de vez em quando.

A Lúcia era uma amiga recente, que a cativou com a sua sinceridade e com o seu jeito meio maluco de levar a vida. Não havia muita identificação entre as duas. Gostava, no entanto, de confidenciar com ela as suas histórias de mulher divorciada que, aos cinquenta anos, permitia-se fazer tudo, ou quase tudo, o que lhe ia na alma. A última aventura foi ter saído com um rapaz no limiar da maior idade. Segundo ela, com um metro e oitenta e sessenta quilos de pura delícia.

A Joaquina, na hora, não acreditou. Depois, a situação despertou-lhe a curiosidade, além de nascer, de forma latente, no seu íntimo, uma certa vontade de compartilhar. Foi pedindo detalhes, até chegar ao ponto de descobrir, só por si, o melhor caminho. Perante tanto interesse demonstrado, perguntou-lhe, a amiga, se queria algum telefone de contacto.

– Claro que não…, articulou Joaquina, meio atrapalhada. Estás louca! E o Luís?, respondeu, referindo-se ao marido. Mas acabou por aceitar, de forma indirecta, a via de comunicação.
Entendeu, para disfarçar, mudar o rumo da conversa. Mas o assunto não lhe saía da cabeça. Mesmo casada, há mais de vinte anos, a relação com o esposo tornava-se salutar e era feita com entrega e carinho. Também era verdade que já faltava inspiração. Trabalho e cansaço acabavam por ser, de ambos os lados, as velhas desculpas. Mas daí a deixar-se envolver por um garoto, de certeza que iria uma enorme distância, pensava.

Na prática, o grande afastamento resumiu-se a uma semana e coincidiu com a primeira viagem que o Luís efectuou, após conversa havida com a Lúcia. No mesmo dia em que deixou a capital, para fazer um estágio em Paris, a ideia voltou a instigar a sua curiosidade. Deu-se, portanto, aquela vontade de fazer arte cerceada desde a adolescência. Ficou agitada. Não conseguia concentrar-se. As ideias, em turbilhão, povoavam o seu espírito.

Era uma sexta-feira. O Verão estava a desaparecer, surgindo, suavemente, o Outono. A noite ainda se apresentava quente, convidativa. Os argumentos que surgiram na mente da Joaquina foram suficientes para que recorresse ao telefone do tal petisco. Ligou e desligou uma série de vezes, até que contactou, por fim, a agência e fez a encomenda. Pessoas adulta, na área dos trinta anos, culta, bem vestida e que só atendesse senhoras. Queria uma personagem possuidora de certas características e com ares de respeito. O nervoso e a calma, em simultâneo, tornou-se tão objectiva, que parecia mesmo, à primeira, fazer aquilo com toda a tranquilidade. Sentia-se, no entanto, bastante fria, calculista e terrivelmente fútil. Todavia, uma voz dentro dela, soava, mais firme:
– És dona do teu corpo. Não deves satisfação a ninguém. Não tens filhos! Como o Estoril se transformou numa palavra quase mágica para muita gente, marcaram o encontro, às vinte horas, numa das esplanadas da praia, depois de confirmadas as referências. Escolheu aquela zona, porque possui a marca e o poder, um carisma de finura e de divertimento, um pouco a ecoar ritmos de outras paragens estrangeiras, mas, sobretudo, caminha na evasão para os paraísos. Tem, ainda, aquela tonalidade mediterrânea de palmeiras, envolvendo-se, toda a área por um quase microclima, onde o vento parece atingir formas de sedução. O jovem não era muito alto, nem especialmente bonito.

Apresentava-se com porte, roupa de marca e logo abriu um sorriso, mostrando uns dentes muito brancos e bem tratados.
– Olá!, fez uma pausa, carregando o sorriso, estendendo-lhe a mão direita, acabando a frase – Sou o Paulo.
Na apresentação deu o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Sentiu o seu perfume. Notou que, discretamente, também estava a ser observada. Foram jantar à luz das velas, num dos restaurantes junto ao oceano, na Boca do Inferno, fora o nome, local arrebatador e apaixonante. Os pensamentos sucediam-se. O coração dela batia forte.

– Meu Deus, o que estou a fazer? Interrogava-se, no íntimo.
Este acto poderia ser perigoso. Estava assustada, mas excitada, em conjunto. Lembrou-se dos seus velhos tempos de menina e moça. Era, por vezes, tão impetuosa. Conversaram sobre os temas mais variados. Falava bem. Mostrava cultura. Sabia estar. Impunha-se com a presença, embora de uma maneira subtil, mas progressiva, ascendendo, sem convulsões.

Tinha feito uma marcação numa Pousada no cabo da Roca. Seguiram, cada um no seu carro. Do quarto, pediu um vinho branco, tipo maduro, de boa casta, com pouco álcool, mas muito gelado. Foi para a varanda beber um copo. Noite alta e fechada. Ouvia-se, apenas, o som das ondas oceânicas batendo nos penedos da costa. Sentia-se protegida pela escuridão. A ansiedade foi passando. Estava de costa quando ele chegou, tocando nos seus ombros. Começou com uma massagem leve, que foi descendo, pelos braços, pelas costas, beijando-a, com arte, pausadamente.

Afinal, aquele homem, encontrava-se, ali, para lhe dar prazer, estava, realmente, a conseguir. Bebeu o copo de vinho em golos repousados, saboreando aquele néctar, ao mesmo tempo que retribuía os seus beijos. Era uma sensação impulsiva, divina.
– Vou divertir-me, pensou, ao tomar conta da situação.
Durante horas deixou-se seduzir por uma pessoa que não conhecia e que nunca mais, de certeza, voltaria a fazer esforços para o encontrar. No tempo, a alternativa, seria o ideal. Sobremaneira esse pensamento tranquilizava-a. Havia momentos, claro, que se encontrava estranha, porque vivia uma aventura que, ainda, a maioria da sociedade, aparentemente, reprova. Noutros passos, sentia-se bem, porque presumia que estava com o Luís, o insaciável companheiro dos bons e velhos tempos.
No dia seguinte, após o pequeno-almoço, agradeceu a companhia que lhe proporcionou uma noite formidável, fez o pagamento à vista, encerrando-se todo aquele cenário.

Na cidade de Lisboa
Voltou para casa, com cara de gato que comeu um canário fora da gaiola. Tomou um banho purificador. Deitou-se, procurando ficara em paz consigo mesma. Impossível dormir. Relembrava tudo o que tinha acontecido, cada passo, cada sensação. Continuou a evitar julgamentos pessoais, porque sabia que senão o fizesse seria condenada e sentir-se-ia culpada para sempre.

– Sou dona do meu corpo, teve de voltar a reviver isso na memória. Passados dois dias o marido estava de volta. Nada lhe contou. Imaginava que, porventura, viria a não compreender e que isso poderia, inclusive, abalar o casamento. No reencontro, apercebeu-se que o Luís talvez apanhasse qualquer música no ar. À noite, sentados no sofá, a ver televisão, comentou que estava diferente. Realmente, apresentava-se mais cuidada, o que acentuava a sua beleza. Olhos com outro brilho, a denotar malícia, pareciam manifestar maior vivacidade e o seu semblante mostrava, de forma espontânea, uma certa satisfação pessoal.
– Cortaste o cabelo?, perguntou na passagem da conversa.

Disse que nada havia de anormal. Era só da saudade, retemperada, agora, com a presença dele. Ele sorriu e deu a entender que era um bom motivo para comemorar.

Nunca mais esqueceu a noite naquela Pousada. O resto da pessoa já se apagou da memória. O que sentiu depois? … Tudo e nada! Terei coragem para repetir?, pensava. Não sabia. Apenas calculava que petiscos frequentes podem perder a graça.

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