Recordo, anterior ao estado pandémico que atravessamos, que, no rigor do Verão, sobretudo nas horas altas do meio dia, a afluência nas praias de banhistas, desloca o descuidoso ou atarefado deambular da população para a beira mar. Uma Agitação dionisíaca e contagiosa alegria impele a multidão a refastelar-se nas espumosas ondas. O antegozo da fresca sensação que isso lhes dá, exagera as vozes e os gestos. Todos se apressam na conquista de um bom lugar ao sol dos recantos praeiros, que se revestem de policrómicos efeitos. Os areais, espelhantes de sol, de espuma e de níveas carnes, com o forte colorido das barracas, dos toldos e dos grandes e pequenos chapéus, de diversas cores, incrustam a sua gritante alacridade no harmonioso e delicado conjunto da paisagem. O sol, caindo a jorros, dulcifica, com um banho de luz refulgente, o excesso de cor que esplende nestes febris instantes da vida dos povos. São belas, extensas e largas circunferências arenosas. Algumas são protegidas por vastos e sombreados pinheirais, onde os campistas encontram repouso adequado. No conjunto, sobre a finíssima areia vêm morrer, contínua e docemente repetidos, maiores ou menores anéis de plácidas ondas.

Vêm à lembrança estas paragens encantadoras a todo o instante e a qualquer época. No entanto, a hora propícia, exclusivamente nossa, situa-se no pino do meio dia estival, quando o sol brilha mais forte. Neste momento, as praias adquirem esse grau de maturidade opulenta, transbordante de efusão, em que todas elas se oferecem num apoteótico abandono. Então o sol, o mar, em conjunto com a multidão dos banhistas, debaixo de um céu acolhedor, celebram em uníssono, um rito profundo e significativo de telurismo.

– Como o tempo passa e a saudade aumenta à medida que os anos avançam – pensava, no outro dia, quando principiei a desfolhar um álbum de fotografias –. Realmente, quanto mais velhos nos tornamos mais À lembrança surgem pedaços da meninice, que fugiu e não volta mais. Fica a recordação, por vezes dolorosa, duma promessa não cumprida, dum dever menos satisfeito, dum projecto que não foi acolhido, de uma protecção ou carinho que não soubemos compreender.

Falo comigo próprio, face às raízes do passado. Estou a ver-me,, de novo, agora em espírito, num carro, outras vezes numa charrete, que cavalos ou burros puxavam, dado ser o principal transporte acessível daquela altura, ao lado de minha mãe, a caminho da praia Norte. Era muito diferente da actual. Os Estaleiros Navais anexaram a antiga praia. Ficou-me a zona gravada na memória, que reforço ao ver as pinturas e fotografias dessa conjuntura. A praia possuía luminosidade fluorescente, que se impunha aos olhos de todos e, ainda, o meu olfato sente a atmosfera de outrora impregnada de maresia. As construções na areia, nos atraentes chãos litorâneos iam surgindo, modeladas nessa areia as mais bizarras e divertidas arquitecturas, que o mar, depois, vinha desfazendo, cobrindo-as de espuma e de pequenas algas. Naquele tempo, era para as lideranças do mar, para as suas imagens, para os seus heróis, para os seus barcos, que o pensamento das crianças mais se virava. No chão arenoso, viam-se as figuras mais estranhas, algumas de uma ingenuidade enternecedora, descobrindo, incentivando ou avivando, ao calor dum salutar sentimento de emulação, a ideia da beleza estética, as tendências e as inclinações artísticas, o gosto pelo labor mental, pelas artes decorativas, pelo artesanato, por vocações que os pais, antes, ignoravam existirem nos seus filhos.

Vem à ideia – o pensamento volta – estampado na areia os batalhadores do mar, os desenhos heráldicos, os mais variados tipos de embarcações, fortalezas e castelos costeiros, plantas e monstros marinhos, peixes, esquiadores aquáticos, bem como um sem número de outras situações. Os mais entendidos nesta arte reproduziam as frontarias da Igreja Matriz e do Monumento de Santa Luzia.

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Era do meio rural que vinha para o mar. Nasci numa aldeia, mas devo confessar que sempre tive um carinho especial e grande fascínio pela cidade. Gosto de ambientes cosmopolitas. No entanto, vivi a infância e parte da adolescência numa bonita e pitoresca povoação distante dos meios urbanos. É a terra dos meus sonhos de criança, pairando, na mente, um mundo de reminiscências.

A casa onde morei e nasci, que mais tarde foi vendida, via-se da estrada, junto a uma curva, ao passar uma ponte sobre um riacho. Ficava no alto, arejada pelo vento, ao mesmo tempo que era protegida por uma laranjeira de grande porte. As paredes eram em pedra tosca. As telhas de canudo, naquele conjunto, produziam algo de natural, tanto no Inverno como no Verão, ao deixar entrar o frio ou o calor, conforme as estações anuais. Três janelas com caixilhos em madeira, duas centrais e uma lateral, conjugado com a única porta da entrada de madeira de pinho, completavam aquele casarão, em conjunto com um alpendre e galinheiros, onde os animais domésticos se desenvolviam, aguardando a venda no mercado, ou a panela em dia festivo. Uma meda de palha de milho a um canto da leira subjacente à habitação, que quase todo o ano se mantinha intacta, renovando-se nas colheitas, dava guarida às galinhas poedeiras e ao cão para se abrigar da chuva ou do calor. A matança do porco, de manhã cedo, que antecedia diversos preparativos e durava dois dias. Era uma festa jamais esquecida, onde as pessoas intervenientes, familiares e vizinhos, já todas falecidas, permanecem gravadas na minha memória, sentindo, na distância dos tempos, os seus gestos e conversas.

Recordo, com uma precisão incrível, que por debaixo da sala existia uma loja térrea, que servia de arrecadação. Coberto por um vinhedo, ao lado da casa, havia um tanque de lavar. A água era tirada de um poço com uma grande roda de ferro, que tinha um balde de zinco brilhante, preso a uma corrente enrolada e fazia um barulhinho cadenciado quando ia lá, ao fundo, buscar água. No quintal viam-se diversas flores plantadas, algumas até ao lado das batatas e do milho, e um canteiro de rosas e cravos de variadas cores, que eram as flores preferidas de minha mãe. Era uma devota ardente de Nossa Senhora de Fátima, que ambas, na auréola do firmamento, me têm acompanhado pela vida fora. Todos os sábados ia à igreja paroquial adornar o seu altar.

Se porventura fechar os olhos e ficar a relembrar o passado, sinto o perfume de todas aquelas flores, assim como dos enormes pêssegos amarelos que sabiam a ananás e colhia, empoleirando-me na árvore, ante o olhar curioso e protector da minha avó do lado materno.

A caminhar para um século, que distância! Que grande afastamento me separa de tão feliz vivência! Há muito tempo que planeava fazer uma romagem de saudade à aldeia dos meus sonhos. Todavia, por inúmeras razões, ia ficando sempre adiada. No Verão passado, aproveitando um decrescer da pandemia, numa bela manhã de sol, com o coração transbordante de contentamento, aí vou eu, com o meu filho, cumprir o desejo ardente de visitar a terra da minha meninice. A viagem foi agradável. O coração saltava de ansiedade. Tudo era diferente. Tudo tinha mudado. Fiquei desapontado. A corografia daquela área encontrava-se num total abandono. A minha casa era um monte de ruínas.  Laranjeira, cansada com os anos e desamparada, com a copa toda amarela, vista ao longe, da estrada, dava a impressão de uma árvore senil à espera da pena capital. Tive vontade de chorar pela desilusão sofrida, face ao espectáculo presenciado. Mas a minha casa de outrora continua, sempre, a fazer parte do meu imaginário, até que a morte venha…

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.