Digo, muitas vezes, encostado à sapiência dos mestres e à experiência da vida, que o meio ambiente em que se vive faz o homem à sua imagem e semelhança e obediente aos preceitos da lei biológica. Claro, a lei, em regra, não falha quanto a determinadas pessoas, quanto a elementos certos e comuns a toda a população local, bem como a particularismos familiares, religiosos, políticos e sociais. Há os hábitos exteriores moldados, na sua vasta maioria, pela mesma cartilha e pelo mesmo figurino, vocabulário, tom de voz e prosápia A filosofia em viver em determinado “meio” actuarão poderosamente na identificação dos seus filhos, por obra dela tão distintos em relação aos demais “meios”, que toda a gente distingue, pelo falar, por exemplo, um alentejano de um minhoto. Vem isto a propósito sublinhar que o tempo passa tão depressa e a pessoa vai-se habituando a novos ambientes. Cria por vezes, um novo modelo de estar, embora diferente do seu nascimento ou vivência da juventude que depois, pela vida fora, não o esquecendo, vai acolhendo outras mentalidades e cria uma prosápia diferente.

Todavia, neste contexto da residência humana, ao fazer valer as comportas da memória vejo-me, de novo, a caminho da Escola Industrial e Comercial Nun’Álvares, que fazia companhia ao Jardim D. Fernando eternizado pela sua ferradura em granito, no tilintar da rememoração de um local que marcou, fortemente os que tiveram o condão de por lá passarern: Escola essa, que mais tarda veio a mudara denominação para Industrial e Comercial de Viana do Castelo. Os sentidos assimilam a minha plena integração a jogar à bola coma rapaziada na antiga arquitectura do Campo da Senhora da Agonia com o combóio de mercadorias a apitar, avisando a presença, na ida e volta da sua deslocação à doca. Faço reter a memória_ Aqui ficarei, por muito tempo, nesta cidade maravilhosa, entre o rio, o mar e a montanha, onde paira uma monotonia melancólica, que faz bern, retempera, anima, aliviando, em simultâneo, o espírito. Por tudo isto continuo a visualizar a Praça da República, na sua topografia do passado, que integrava cafés, alguns agora fechados, onde se jogava o “trinta e um”, ao café do almoço, e anote, num deles, bilhar, damas, dominó, acompanha do, a todo o momento, do dássico xadrez. Num intervalo das aulas, ou de umas “gazetas” às disciplinas mais enfadonhas fazia-se uma fugida até à antiga e acolhedora Praia Norte, agora absorvida por áreas do ensino e do saber, do lazer e da restauração, afiado aos parques infantis e zonas de entretimento, além do pólo industrial, tudo numa envolvência com os Estaleiros Navais. O Monte de Santa Luzia não ficava esquecido para explorar grutas, ou o campo de futebol, ainda com o piso em terra amada do Sport Clube Vianense para se jogar “à bandeirinha”. Como tudo está distante e presente na memória. Depois da memoriação os pensamentos diluem-se e, naturalmente sinto-me, de novo, no terreiro actual da vida onde se luta, se sofre e se morre. Os rapazes e as raparigas da minha infância são velhos em demasia e a maioria passeia-se pelo caminhos do etéreo.

Que afirmar, em concreto, dos actos ocorridos? Há tanto para lembrar, que se fica cansado de pensar. Os anos fogem. A juventude desaparece. As pessoas criam novas sensibilidades. Uns enriquecem. Outros empobrecem. Nas comportas da memória os cenários do terminado ficam, sempre, registados, tanto para o bem como para o mal Agora aqui, que recordar?

Tudo e nada! Saudade, palavra que pode ser reconfortante ou triste de um bem findo, ou de uma coisa que se ficou privado.

Vamos percorrer o presente enquanto não fizermos parte dos excursionistas da longa viagem sem regresso, juntamente com as famílias que constituímos e, amanhã, senão hoje, os nossos filhos também recordam…

Nota: Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.