No calendário da vida mais uma gerência temporal se inicia. O ano de 2020! Aí está ele a dar os primeiros passos… Nós, cautelosos, a esperar pela sua conduta. Compreenderão, todos, certamente, como se torna difícil escrever sobre o óbvio, atento o momento presente, porque para o que se está a passar no planeta Terra tentam, os que mandam, de uma forma tão clara, justificar o que é injustificável, tornando-se, tudo, ainda mais óbvio.

Ao anunciar-se um tempo novo, a certeza que temos, tirando a morte e o pagamento de impostos, que são as únicas coisas actualmente certas, o restante são as constantes indecisões que se têm tornado no maior obstáculo ao desenvolvimento geral. Mas outro ano se adiciona à grande roda da existência, que se pode chamar o carrossel do viver. O povo necessita de datas, dos rituais e das liturgias. Precisa de momentos que estimulem a generosidade ou de manifestações de paz, harmonia e bem estar.

Quantas e quantas alturas, no decorrer do ano e dos anos os governantes, além do vulgar ser humano, furtam-se à escuta, deixando de ouvir as reclamações e as queixas do semelhante, mesmo aquelas para as quais exis­te, fortemente, uma explicação plausível.

Abandona-se o mais elementar princípio da ligação recíproca quando se sabe que uma palavra de conforto, um afecto ou um afago servem de alimento à alma de quem sofre e padece com os incómodos do infortúnio e da pobreza, aliado, na maior parte das vezes, ao panorama da infantilidade e da velhice. Não se imagina, tantas ocasiões, o valor da aproximação, da expressão do amor e da verbalização da solidariedade, senão quando se precisa. Até os animais irracionais sen­tem isso! Por todas estas coisas, pelo nascer e renascer da vida e do no­vo ano, pela oportunidade em se confraternizar e pela motivação para a ajuda mútua, que cada um se permite sair do casulo em que se encontra e cumprir, no doravante dos dias, esse desiderato, de que se ressente a criatura contemporânea diante de um universo confuso e perturbado.

Deve-se tentar impedir a materialização precoce do real, para que os gestos não sejam iguais ou parecidos àqueles que assassinam à custa de um revolver, que cospe fogo e vomita a bala da morte. Afinal, é desse convívio colectivo mínimo que se pode forjar o bom carácter e a personalidade forte das pessoas que emergem para a grande caminhada da vida, desejando, sempre, uma felicidade flutuante ao que poderá, na anuidade, acontecer.
O óbvio é um tema penoso. O óbvio agrava os nossos dissabores, porque po­de ocorrer sem ser esperado. A única certeza que temos é a incerteza com que nos defrontamos, na espera de um ano melhor, mas sem ficarmos ver­gados à utopia.

Nota: Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.