Guicciardini, historiador e publicista italiano, nascido em Florença, que viveu entre 1482/1540, defendia o ponto de vista que não se de­ve gastar, contando com os ganhos futuros, porque, muitas vezes, faltam, ou são menores do que o esperado. Tem cabimento, nesta tese, acautelar o medo, a reserva ou o receio ao “conto do vigário”, procedimento já de origens longínquas. Segundo nos ensinam as enciclopédias a vigarice situa-se numa história contada a uma ou mais pessoas crédulas com o fim de as ludibriar e adquirir proventos indevidos. É acreditar, portanto, no que é contado e, a partir daí, abrir-se a via do engano.

Vem isto a propósito perguntar como é possível entrar-se no jogo de burlas gigantescas, como as que ocorreram, anos atrás, relacionado com os depósitos a prazo fora do sistema bancário, secundado pelo Fórum Filaté­lico. Entre nós, fez história, como sendo o maior dolo de todos os tem­pos, o chamado caso “D. Branca”, continuado com o da Afinsa. Pagavam-se elevados rendimentos, mais do dobro que o mercado financeiro, aos aforradores, atentos os fluxos dos investimentos. Era um sistema que se de­senvolvia em pirâmide. Quando estas burlas começaram a ser notadas e vieram a público, atento o seu plano fraudulento, gorou a fractura e o caos do negócio. O processo “D. Branca”, nesse tempo, foi um dos maiores ca­sos judiciais que ocorreu nos nossos tribunais. Gerou alguns suicídios, entre os investidores. O pânico que ocasionou foi comparável ao que se desenrolou, depois, aos que aplicaram as suas poupanças no universo da filatelia. Faz pensar, interrogando-me, como pessoas eruditas, cursadas, a deitarem conhecimentos por todos os poros do corpo humano venham a tropeçar nestas ciladas? Como é possível que homens e mulheres, que fa­ziam, na ocasião, capas de revistas agirem no contexto de uma engenhosa máquina fraudulenta? Nesse período, um membro do Governo, que veio a ser afastado mesmo antes de rebentar o escândalo filatélico, soube-se que era consultor da Afinsa, porque, na hora do indecoro, demitiu-se.

O funcionamento do aparelho da Afinsa na sua grandeza de sofisma, antes da derrocada, parecia tentar as pessoas a investirem no negócio dos selos, porque dava a entender, atenta a publicidade e os seus múl­tiplos angariadores ser uma transacção crível. Afinal, na sequência da queda noticiava-se que o dono desse império falido possuía empresas pe­lo mundo fora, desde a Califórnia a Xangai, bem como da Europa à América do Sul, onde se movimentavam cerca de quatro mil trabalhadores. Na al­tura, foi preso. Falava-se que deixou de poder desfrutar do seu iate, jogar golfe com os amigos, ou deleitar-se com as suas obras raras de pintura, que iam desde Picasso, a Dali e Vieira da Silva, ou até conviver com o pai do actual rei de Espanha, que nessa data reinava. Em Viana do Castelo existiu uma delegação da Afinsa, que após o rebentamento da bomba escandalosa acabou por fechar e que permaneceu numa atitude de silêncio intrigante.

Nada disto serviu de escudo às pessoas menos cautelosas no que toca à possibilidade de continuarem a cair na esparrela. No dia a dia, a imprensa escrita e falada continua a noticiar as mais variadas artimanhas a atingir o campo do embuste, através de artes mágicas dos bruxos, videntes, feiticeiras e cartomantes.

Nota: Esta crónica, por vontade do seu autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.