Garantia deixada por Miguel Alves, presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil

Miguel Alves, presidente da Comissão Distrital de Viana do Castelo da Proteção Civil, é uma das figuras que acompanha mais de perto o fenómeno do Covid-19 no Alto Minho. Hoje, a meio de um dia atarefado devido, em grande parte, a iniciativas no âmbito do combate à pandemia, o também chefe do Município de Caminha e presidente do Conselho Regional da CCDR – Norte esteve à conversa com A AURORA DO LIMA.

 

 

VIANA COM METADE DOS INFETADOS NO DISTRITO

A Aurora do Lima (AAL): Como está a Comissão de Proteção Civil distrital a acompanhar a evolução da pandemia do novo coronavírus no distrito?

Miguel Alves (MA): Com muita atenção e proximidade. Há um grupo de trabalho que reúne diariamente. A comissão que foi criada no âmbito desta Declaração de Emergência também reúne semanalmente. Trata-se de um conjunto de elementos – eu (pelas autarquias), GNR, PSP, Medicina Legal, USAM, Cruz Vermelha, INEM. Todos os que mais diretamente estão ligados a esta matéria. Neste momento olhamos para o distrito de Viana do Castelo onde, apesar de tudo, tendo em conta os grandes números do país e da Europa, estamos num período de contenção. Embora saibamos que há uma divisão muito grande nos números identificados hoje – o concelho de Viana do Castelo [mais de quatro dezenas de infetados] tem sensivelmente metade dos dados confirmados nos outros distritos [população em Viana do Castelo representa 1/3 do distrito]. Portanto, temos noutros concelhos, apesar de tudo, situações que nos vão preocupando, mas que os autarcas, com o trabalho extraordinário que têm vindo a fazer têm identificado o que se passa e feito um labor de proximidade que permite identificar pessoas que tiveram contacto com casos positivos ou com suspeitos. Acho que, desse ponto de vista, o distrito tem estado à altura. Cada dia é um dia, não sabemos como será daqui a uma semana, mas a situação é um pouco distinta da dos vizinhos. No contexto do Norte, temos o menor número de infetados. O distrito de Viana do Castelo está a fazer, de facto, um bom trabalho, mas, de um momento para o outro, pode-se borrar a pintura, com um comportamento menos cuidado ou incapacidade de responder a algumas situações. Genericamente, temos vindo a acompanhar estas situações. O enfoque no trabalho das autarquias empenhadas em suster isto com outras entidades que compõem a Proteção Civil. Estamos a fazer o nosso trabalho com um grande desconhecimento, isto é um vírus novo, ainda não há imunidade. Falta a vacina, digamos assim. O nosso apelo é para os que podem e não têm de sair para trabalhar, mantenham o isolamento.  As medidas restritivas vão sendo aplicadas e também estamos a ficar preocupados com aquilo que pode ser o impacto no espírito das pessoas. No cansaço que também existe, no cumprimento destas medidas. Estamos há já duas semanas em casa, temos mais duas semanas pela frente até à Páscoa que era uma época em recebíamos os nossos amigos e familiares. Todos os dias há factos novos e da parte da Proteção Civil tem havido uma grande coordenação

AAL: Por que razão os números de Covid-19 divulgados pela Direção Geral da Saúde (DGS) são diferentes dos divulgados por alguns municípios do Alto Minho?

MA: Isso terá de perguntar à Direção Geral de Saúde. De facto, os números que temos da Proteção Civil é desta partilha dos municípios, transmitidos pela ULSAM. Não lhe posso dizer a razão para isso, mas, sim, que é importante ter os números o mais aproximados possível à realidade. Os que a ULSAM indica à Proteção Civil e esta aos municípios estarão mais próximas da realidade, porque é mais célere. Admito o processamento mais lento dos dados na DGS,

 AAL: Quanto ocorrerá o início dos testes rápidos nos centros de rastreio móvel “Drive Thru em Valença e Ponte de Lima, depois desta semana ter entrado em funcionamento o de Viana?

MA: É uma pergunta para a ULSAM. Não compete à Proteção Civil. Esta entende que se deverão encontrar as soluções o mais rápido possível. O que acontece nestes casos? A autarquia disponibiliza os espaços para que a ULSAM instale o necessário para efetuar os testes.

PROBLEMAS COM MATERIAL DE PROTEÇÃO

 

AAL: Ouvimos e lemos que faltam materiais de proteção individual aos profissionais de saúde. No Alto Minho também se verifica?

MA: O Alto Minho não difere do resto do país. Aqui também há alguma dificuldade em adquirir material de proteção. Se há dificuldade, poderão existir alguns problemas com o material. A Proteção Civil acompanha naturalmente tudo o que está relacionado com as redes de saúde, hospitais, para que os nossos enfermeiros, médicos e auxiliares tenham os instrumentos de proteção. Essa é a primeira prioridade. A outra é encontrar soluções para aqueles que estão a trabalhar em lares da terceira idade ou no apoio domiciliário. Nesse ponto de vista, os municípios têm sido muito importantes porque têm resolvido algumas das situações que estão aí em alarme. Talvez no mesmo patamar que todas as equipas que trabalham com a Proteção Civil – Bombeiros, PSP, GNR, INEM… ou, diremos melhor, todos os que estão na primeira linha. Seria errado dizer que existe material de proteção individual para todos em abundância. Existem alguns problemas onde temos de racionalizar os meios. Mas também sabemos algumas das medidas que estão a chegar, algumas respostas que estão a chegar, no sentido de que a solidariedade que cada município tem para, no limite, se consiga continuar a fazer o trabalho. Há de facto situações com batas, máscaras e zaragatoas onde há algumas falhas. Mas estamos a ter a coragem, até física, dos profissionais de saúde e Proteção Civil, e redes de apoio social montado quer pelas instituições, quer pelas câmaras municipais. Entretanto, tudo se vai resolvendo, esperamos que o que está a chegar ao fim, seja reposto.

AAL: E a situação nos lares?

MA: Não faltam alertas das direções dos lares, nem as chamadas de atenção das autarquias sobre estas matérias. O que está a acontecer é que a ULSAM está a ultimar, creio eu, neste momento, ainda não tenho certeza absoluta, o programa que permite os lares identificarem situações suspeitas para puderem realizar os testes. O que posso dizer é que houve autarquias – Caminha foi uma delas – e embora esta medida esteja centralizada na ULSAM, que disponibilizaram já testes nos lares a pessoas suspeitas de ter contaminação, mediante uma receita médica. Nos lares não está previsto fazer testes a toda a gente, a não ser em casos muito especiais como um foco de contaminação evidente. O que está já a ser feito pelas autarquias é quando há um suspeito no lar, fazem-se os testes. Há uma rede montada que permite dar resposta a isso.

NÃO HÁ MEDIDAS FECHADAS

 

AAL: O seu comentário da medida hoje anunciado pelo Governo de integrar de desempregados em lares, hospitais ou outras respostas sociais?

MA: Foi positivo, mas não sabemos de eficiência. Estamos a viver aquilo que nunca ninguém viveu. Não existe um manual de instruções para agir nestas matérias. Estamos a agir de modo experimental, em algumas medidas. Temos de ser graduais nelas. Quer o Estado, quer as autarquias não têm medidas fechadas. Não sabemos o que vai suceder daqui a uma semana, um mês ou três meses.

Há uma base fundamental de apelo às populações e apoio às nossas instituições, mas, depois, também estamos a procurar encontrar as medidas certas para o momento certo. A prioridade neste momento é o combate à doença, tentar conter esta pandemia que tomou conta de nós. Neste momento, todas as instituições têm de começar a preparar já o dia seguinte do “Pós-Guerra”. Economicamente vamos, provavelmente, viver dias que nunca vivemos, nem sequer no período do Troika. Muito pior! Do ponto de vista económico, todas as medidas que forem tomadas, hoje, mas posso, desde já fazer futurologia muito simples: não vão ser suficientes. Provavelmente, vão ser precisas mais medidas no futuro e têm de ser enquadradas dentro do esforço que o Estado pode fazer; a Administração Central e as autarquias, naturalmente.

AAL: Como disse, Viana do Castelo tem-se portado à altura. É um dos dois distritos do país que ainda não ativou o Plano Distrital de Emergência da Proteção Civil.

MA: Para já, ainda não precisamos. Neste momento estamos autorizados a fazer tudo o que é necessário fazer. A possibilidade de recorrer a determinado tipo de meios e atingirmos uma determinada situação que está mais ou menos dentro do que, digamos assim, ‘razoável’.

 

CONFINAR-SE NA HABITAÇÃO

AAL: O que é que a população civil pode fazer para auxiliar nesta “guerra”?

MA: A população é a parte mais forte nesta batalha. Se não tivermos uma batalha comunitária (nunca tivemos uma guerra destas), todos podem contribuir para o esforço; mas todos, sem exceção. Qualquer indivíduo. Todos os portugueses podem contribuir para esta guerra.  A forma como encarar o seu comportamento vai definir aquilo que acontece na sua casa, na sua família, na sua freguesia e no seu país. Não vale apenas atirar as culpas para o Governo, para o vírus, para um chinês ou para outro país. Não. Desta vez, temos todos uma responsabilidade. Portanto, no mínimo, todos que cumpram as indicações da DGS. Temos todos de nos confinar na nossa habitação, se não formos trabalhar. De cumprir as regras de higiene que têm vindo a ser faladas. De estar em quarentena se formos suspeitos da infeção ou tivemos contacto direto com alguém que sabemos ter a infeção. Ser fundamentalmente fortes para aguentar este impacto. Ainda hoje tive oportunidade de estar num funeral aqui em V. P. Âncora. Já em si é um momento de grande tristeza e saudade. Estiveram cinco ou seis pessoas. As outras não se puderam despedir daquele com quem estiveram toda uma vida. E mais: houve familiares dessa própria pessoa, que estão em quarentena por razões de precaução e não puderam despedir-se do seu pai. Uma situação extraordinária e um fenómeno de tristeza tão grande. A sociedade não estava preparada para enfrentar estes dias. Estamos a fazer para que a esperança seja a palavra mais forte.