Na campanha que estão a desenvolver para angariação de fundos, a Liga dos Amigos do Hospital já ultrapassou a barreira dos 100 mil euros. Esse valor vai ser, de imediato, transferido, segundo o presidente, Defensor Moura, para a administração da Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM), para que possam adquirir 10 ventiladores.

Em entrevista ao “A Aurora do Lima”, Defensor Moura falou de um vírus “muito contagioso” e enalteceu a solidariedade dos vianenses. O também ex-autarca de Viana do Castelo afirmou que “todos os municípios estão a fazer um grande esforço” no combate à pandemia do novo coronavírus. Sem querer particularizar o caso de Viana, Defensor Moura manifestou a importância de mobilizar o voluntariado e a sociedade civil.

A Liga está, também, em colaboração com a Diocese de Viana do Castelo e o Conselho de Administração do Hospital, a montar um hospital de retaguarda no pavilhão do Seminário Diocesano que deverá entrar em funcionamento na próxima semana. A Liga fica responsável pela montagem do mesmo, mas a partir daí cabe à Administração do Hospital de Santa Luzia a colocação de profissionais no espaço, que terá capacidade para meia centena de camas.

 

A Aurora do Lima (AAL): A Liga dos Amigos do Hospital de Viana está neste momento a liderar duas campanhas. Por um lado, a criação de um hospital de retaguarda e por outro a angariação de fundos para a aquisição de ventiladores. Fale-me um pouco do hospital de retaguarda.

Defensor Moura (DM): Antes de mais é necessário referir que a Liga dos Amigos do Hospital é uma organização da sociedade civil e que vive exclusivamente de donativos de privados. Não dependemos de apoios públicos, nem de subsídios. Vive exclusivamente de contribuições privadas e de trabalho voluntário.

 

AAL: Como surgiu a ideia do hospital de retaguarda?

DM: Fizemos uma proposta à Diocese no sentido de aproveitar o pavilhão desportivo do Seminário para instalar um hospital de retaguarda, uma vez que se prevê que o hospital (de Santa Luzia) fique sobrelotado brevemente com doentes Covid-19. Este hospital destinar-se-á a doentes que tenham sido internados no hospital e que já não precisam de ventilação, nem de oxigénio, nem de medicação parentérica, mas que tem de continuar a medicação numa enfermaria de recobro. Funcionará como uma enfermaria de recobro. Os doentes ficarão lá mais quatro, cinco ou seis dias, até irem para casa.

 

AAL: Já tem data da entrada em funcionamento?

DM: Neste momento estamos a montar, e como dependemos de contribuições voluntárias, ainda não dispomos de tudo. Dependemos de quem forneça lençóis, cortinas, os estrados e colchões para as camas, enfim, várias contribuições. Acredito que amanhã ficará tudo pronto para se fazer uma limpeza geral. No sábado já entra a equipa do Hospital para tomar conta. A limpeza já será feita pela equipa de limpeza do Hospital. E depois vão-se instalar todos os equipamentos para, eventualmente, no início da próxima semana começar a funcionar.

AAL: Dará apoio a quantas pessoas?

DM: Terá 50 camas, que serão utilizadas rotativamente, conforme as necessidades.

AAL: E em termos de equipa médica?

DM: A equipa médica será do Hospital. Este vírus é uma coisa muito séria. Nós, o voluntariado é só preparar as coisas e criar condições para que os profissionais façam o trabalho. Inicialmente falamos também com o Conselho de Administração da ULSAM, que logicamente ficou muito contente por ter um hospital de retaguarda para poder aliviar as camas do Hospital. Sei que já estão a libertar várias áreas do Hospital para meter doentes Covid e começa a ficar muito sobrelotado. E todos os doentes que não precisem de cuidados muito exigentes, de aparelhagem e apoio médico, podem ir para o hospital de retaguarda e aliviam.

 

AAL: Outra campanha que também estão a desenvolver é para a aquisição de ventiladores?

DM: Nós estamos a fazer uma campanha nas redes sociais para angariar meios financeiros. Posso dizer que hoje mesmo ultrapassamos os 100 mil euros.

 

AAL: Não é uma campanha exclusiva para ventiladores?

DM: Os 10 ventiladores vão levar esse valor. Mas há ainda necessidade de outros equipamentos. A instalação do hospital de retaguarda também tem alguma despesa. Esta é pequena. A grande despesa é dos ventiladores e outros equipamentos complementares. Há muitas coisas que são precisas para o Hospital. Os ventiladores exigem meios complementares e nós vamos contribuir também para isso.

 

AAL: A campanha continua.

DM: Sim. O primeiro grande objetivo era a aquisição de ventiladores, mas há outras necessidades. E até, eventualmente, comprar mais ventiladores. O problema agora é também haver ventiladores [no mercado]. Nós vamos transferir este dinheiro para o Hospital para cobrir a despesa da encomenda feita. Quem vai encomendar é o Hospital até para não sermos vigarizados. Porque agora há muito oportunismo. E nós entendemos que a seleção tem de ser feita por profissionais e assumido pelo Conselho de Administração do Hospital.

 

AAL: O senhor também é médico. O que tem a dizer sobre esta pandemia?

DM: Eu não me quero pronunciar sobre isso, até porque não sou epidemiologista. Mas o que posso dizer é que é muito grave, porque é altamente contagioso. Nunca tivemos uma coisa destas. Isto é muito perigoso, e os profissionais de saúde têm de estar devidamente protegidos e não podemos deixar nenhuma porta de entrada para o vírus.

 

AAL: Há também outro hospital de retaguarda no Centro Cultural. São suficientes?

DM: Esse faz parte do plano de contingência municipal. A grande diferença é que esse é feito com fundos públicos. São os militares que montam as camas e o pessoal da Câmara. O nosso é tudo voluntariado. A montagem das primeiras camas e o transporte foi feito pelo Grupo de Escuteiros de Areosa e pelo Grupo Folclórico de Perre. Temos também o Grupo Etnográfico da Areosa e o de Alvarães preparados para este fim de semana. Há muita gente voluntária e muitas boas vontades. Se lhe disser que os lençóis, por exemplo, o tecido foi doado por uma empresa de Barroselas, cortado por uma de Vila Mou e está a ser costurado numa empresa de Moreira de Geraz do Lima. Veja lá como as boas vontades se juntam nesta hora de solidariedade. A Liga dos Amigos tem sabido reunir e nesta altura é que vemos quem é amigo.

 

AAL: Só com a sociedade civil a mobilizar-se é que conseguiremos combater este novo coronavírus.

DM: Esta situação, que referi dos lençóis, é muito significativa, porque o tecido foi doado por uma fábrica, cortado por outra do outro lado do rio e depois volta para Moreira para ser costurado.

 

AAL: Há mais alguma necessidade premente?

DM: Apelo a que as pessoas continuem a fazer as contribuições para o nosso IBAN 0045 1436 4027 9519 0695 8.

 

AAL: Há conhecimento da falta de equipamento de Proteção Individual nos hospitais. Na ULSAM também se verifica o mesmo cenário?

DM: Faltam em todo o mundo. Sei que o Hospital tem uma encomenda que deveria chegar estes dias, de 10 mil máscaras, EP2. Naturalmente, que faltam. Há também outra situação, em que o material desaparece.

AAL: Desaparece como?

DM: Há muita gente que gosta de ter álcool em casa. Como se compreende que haja falta de álcool e de desinfetante quando havia tanto!?. Há, por exemplo, umas máscaras que se compravam a 29 cêntimos e agora estão a ser vendidas a mais de três euros. É mau para uns que adoecem e morrem, mas há outros que se aproveitam desta situação. Aliás, os próprios ventiladores tiveram um aumento de preço.

 

AAL: A dádiva de Sangue tem caído na sequência desta pandemia.

DM: Sim, muitos por receios, que não são fundamentados, porque o Hospital garante todas as normas de segurança aos dadores. Mas como tem havido uma redução da atividade cirúrgica regular, também as necessidades de sangue têm reduzido. Agora, o sangue é necessário só para os acidentes e para as transfusões e faz com que a carência não seja tão grande. Nós temos feito vários apelos, sempre salvaguardando a questão do confinamento.

AAL: Continuam a fazer as colheitas quer no hospital quer nos diferentes concelhos do distrito.

DM: Sim, quer no horário habitual no Hospital, quer nos 10 concelhos com as brigadas. Há um circuito distrital, que está a ser cumprido.

AAL: O que lhe parecem as medidas implementadas pelo Município?

DM: Acho que todos os Municípios fizeram um grande esforço de proteger as suas populações e isto é uma obrigação de todos. Quem está em funções oficiais, seja no Governo seja nos municípios, seja na direção das Instituições têm obrigação de fazer isso. O importante é mobilizar o voluntariado e mobilizar as pessoas para seguirem as instruções que são dadas pela Direção Geral da Saúde.

AAL: E em Viana, as medidas são adequadas?

DM: Eu acho que sim. Tenho andado tão ocupado, que não tenho verificado, a fundo, as medidas, mas tenho visto que a população se tem portado bem. Tem ficado contida em casa. As forças de segurança e todo o voluntariado têm funcionado muito bem.

Cidália Meirim Rodrigues