O geólogo Carlos Leal Gomes, que estuda há vários anos as jazidas de lítio em Portugal, disse que a Serra d’Arga, no distrito de Viana do Castelo, tem pouco lítio e que a sua exploração “vai dar muito trabalho”.

“Nesta região o lítio é pouco. Não sei que empresas vão pegar nisto. Empresas grandes, não terão interesse numa situação destas. Poderão aparecer empresas pequenas de prospeção, que não têm verdadeira vocação de exploração mineira, mas possam apostar na transação de projetos”, afirmou, segundo a Lusa, na segunda-feira, o professor universitário.

Considerado um dos maiores especialistas em lítio, Carlos Leal Gomes, que falava durante um debate sobre prospeção e exploração de lítio na Serra d’Arga, promovido pela Assembleia Municipal de Viana do Castelo, afirmou que aquela região “não é a mais adequada”, para “encontrar lítio nobre”.

“Não é o melhor cenário para se ter uma atividade mineralúrgica estável como as empresas, que verdadeiramente se dedicam à exploração, não à prospeção, gostam de ter (…) Esta região vai dar muito trabalho para quem quiser fazer prospeção, vai dar muito trabalho a quem quiser fazer mineralurgia”, afirmou naquela sessão de esclarecimento que terminou hoje de madrugada.

A Serra d’Arga, que abrange os concelhos de Viana do Castelo, Caminha, Ponte de Lima e Vila Nova de Cerveira está atualmente em fase de classificação como Área de Paisagem Protegida de Interesse Regional, numa iniciativa conjunta daqueles município para garantir a proteção daquele território.

O debate, promovido pela comissão permanente da Assembleia Municipal de Viana do Castelo, surge na sequência da consulta pública, em curso até 10 de dezembro, do relatório de avaliação ambiental preliminar do Programa de Prospeção e Pesquisa de Lítio em oito potenciais áreas para lançamento de procedimento concursal, entre elas a Serra d’Arga.

“Esta situação colocada a concurso com base em elementos tirados sobretudo de bibliografia, grande parte minha, que eu reconheço que é fraca e em pouco mais, é pouco (…) Uma questão destas, tão abrangente, não devia ser lançada assim num programa a nível nacional sem atender à concorrência mundial do setor”, defendeu, apontando exemplos nos anos 80 em que se investiu na exploração de quartzo e muitas empresas fecharam pouco tempo depois do início da atividade e outros projetos foram abandonados.

O professor universitário, considerou que aquela zona “não é o melhor cenário para uma atividade mineralúrgica estável como as empresas, que verdadeiramente se dedicam à exploração, não à prospeção, gostam de ter”.

Já para a indústria cerâmica disse não haver “problema nenhum porque o filão é todo aproveitado”.

“Uma mina de cerâmica pode ser uma coisa pequenina, com 50 metros, por 10 metros, com 20 a 30 metros de profundidade. Para os mesmos materiais serem aproveitados para o lítio terão de existir, a céu aberto, três ou quatro minas destas.

A seguir quem investir terá de se preocupar com o impacto ambiental associado à atividade extrativa”, observou, alertando que “há que contar com a contestação das populações que consideram aquela zona emblemática”.

Mário Machado Leite, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), outros dos oradores na sessão, explicou que a instituição é “responsável pelo estudo da geologia do país, e quando foi chamada, pelo grupo de trabalho criado pelo Governo, a identificar as potenciais áreas para a exploração daquele minério, delimitou a Serra d’Arga”.

“Se o LENG tivesse esquecido de colocar a Serra d’Arga estava a cometer um erro. Não estava a disponibilizar a informação que tem sobre a geologia do território”, especificou.

Garantiu que o LNEG não identificou aquela área com base no critério do “binómio quantidade/qualidade suficiente para justificar atividade mineira”, porque essa investigação cabe às empresas que concorrem à concessão.

Segundo Mário Machado Leite, o lítio existente em Portugal “está nos minerais duros e precisa de ser diluído para entrar no processo de fabrico dos compostos de lítio que são utilizados nas baterias”

“A exploração de lítio de minerais duros é quatro a cinco vezes mais cara, por cada unidade de lítio produzida, do que do lítio oriundo das salmouras. Portugal não tem salmouras. As grandes reservas salmouras existem na América do Sul, na Austrália”, especificou.

Segundo o responsável, “na competição mundial do lítio a Serra d’Arga tem um ‘handicap’ muito negativo porque o que se conhece dos recursos é pequeno, não há grandes explorações”.

“Hoje em dia, a descoberta de uma mina é improvável. Quando o grupo do lítio diz que há oito áreas no país onde pode existir lítio, o país todo pensou que íamos ter nove minas de lítio, ou mais. Isto não é possível. Se nós tivermos uma mina, provavelmente, seremos bem-sucedidos”, frisou.

Já presidente do LNEG, Teresa Leitão alertou que “sem minerais não existe transição energética” e que “os minerais são o novo petróleo”.

Teresa Leitão garantiu que “há regras ambientais muito especificas que as empresas que concorrerem terão de cumprir”, apontando a recuperação dos danos causados pela atividade extrativa e o pagamento de uma caução para garantir mais-valias às populações.

“Temos de avaliar os impactos sem extremar posições”, apelou, exortando todos os presentes a confiarem na ciência.