Eram 10 horas da manhã. Entradote na idade, surgiu de mansinho na nossa receção. Com educação esmerada, a irradiar simpatia, saudou-nos com alegria, assumindo-se como mais um da alargada família “A Aurora do Lima”.

“Chamo-me Joaquim Terroso. Sou dos mais velhos assinantes deste vetusto jornal; uma assinatura que já ultrapassou um século”, disse vaidoso e com um sorriso nos lábios. Herdou-a do pai, que por sua vez já a tinha herdado do avô. Agora queria legá-la aos filhos. “A cadeia não pode ser quebrada, é uma questão de honra”, disse sorrindo de novo.
Era um vianense de gema, mas radicado desde há muito tempo na capital. Ainda menino, enquadrado na família, rumou a Lisboa, onde o progenitor ia abraçar uma nova carreira profissional.

Como é costume dizer-se, “falava pelos cotovelos”, mas de forma cativante e nunca cansativa. Com naturalidade, sem nos deixar distrair, arrastava-nos para o diálogo. Adorava Viana, já que não conhecia cidade mais bonita. Nas Festas d’Agonia, e não só, como estava a acontecer agora, era presença assídua. Até nem se lembrava de alguma vez ter faltado.

“É um pequeno mundo que criamos nesta nossa cidade de fantasia, que deixa embasbacado quem cá vem, fundamentalmente os que nunca cá tinham vindo”. Bom, e da história da cidade, era um nunca mais acabar!!! “O que aprendi com tantos e bons cronistas deste nosso jornal. Quando cá venho, lembro-me de todos eles, e particularmente de José Rosa Araújo. O que aquele homem escreveu sobre a vida da nossa urbe!!!. Agora que, temporariamente, por cá vou ficar, vou rever e recordar o tempo da minha meninice”.
Convidou-nos a dar um passeio com ele. Queria ir a Santa Luzia, ver aquela paisagem maravilhosa, sem igual, mas gostava de companhia. Não tínhamos muito por onde fugir e um assinante de mais de cem anos é merecedor de todas as honrarias.

Ainda na rua de Manuel Espregueira, já falava de casos e do muito comércio que por ali estivera instalado. “É melhor ficar para depois, Senhor Joaquim. Primeiro Santa Luzia”, dissemos-lhe. “Muito bem, muito bem”, adiantou. Rua do Trigo acima e rapidamente chegamos ao Largo 5 de Abril. “Olha, olha, o edifício que foi quartel. Que saudades que tenho da tropa aqui sediada, sempre com um militar de serviço na porta e um vai e vem de gente fardada”. A emoção tocou-o, e logo concluímos que tínhamos conversa longa.

Simplificámos o assunto. – Senhor Joaquim, conhece bem a vivências da tropa em Viana? – Claro que conheço! – Então vai virar cronista e contar para os nossos leitores, com pormenores, o tempo da gente fardada na nossa cidade. Santa Luzia pode esperar. Fica para outro dia. – Acho excelente, nesta idade madura fazer-me cronista do nosso Aurora. Amanhã ou depois, visito-vos de novo para entregar o meu trabalho, devidamente ilustrado, porque também tenho material para tal. E, depois, vamos mesmo subir o monte. Devagarinho, até vamos a pé. Olhe, já agora, sabe, aqui também se situava a igreja de Monserrate, que gente maldosa mandou demolir. Depois também posso escrever sobre o assunto…

Fez-se a despedida, convencidos de que não haveria crónica, nem mais passeios a fazer. Enganados que estávamos!!! Vamos ter mesmo que calcorrear os cantos da cidade e arrabaldes. Paciência, também nos enriqueceremos. E agora fica a crónica do Senhor Joaquim, com a promessa de que muitas virão.

Uma presença militar familiar
A presença militar em Viana foi uma constante até 1976, ano em que se extinguiu o Destacamento do Regimento de Infantaria de Braga, sediado nesta cidade. No ano anterior, também por despacho do Chefe do Estado Maior do Exército, tinha sido extinto o Batalhão de Caçadores n.º 9, que tinha com Viana uma vincada relação de afeto, dada a sua participação no Movimento das Forças Armadas desencadeado no 25 de Abril de 1974.

Apesar dos muitos protestos da imprensa local, com destaque para o A Aurora do Lima (temos de bater o pé e fazer valer as razões que nos assistem, dizia este jornal na sua edição de 16-11-76) e das forças vivas da região, alegando avultados prejuízos económicos e socioculturais, Viana disse um adeus definitivo aos militares que, ao longo de séculos, foram considerados parte integrante da cidade.

De expressivo significado é também o quartel onde esteve sediado até à sua extinção o Batalhão de Caçadores 9, situado no Largo 5 de Abril, espaço denominado Largo de Monserrate até 1916, por aí se ter situado a igreja de Monserrate. Trata-se de um edifício datado de 1790, que abrigou o bem conhecido Regimento de Infantaria 3 (R. I. 3), ao qual pertenciam as tropas que constituíram a Brigada do Minho, que se destacou com heroísmo na batalha de La Lys, França, em 1918. Mas este aquartelamento tem outras gratas recordações. No tempo em que abrigava o R. I. 3, este regimento dispunha de uma banda de música, muito apreciada na cidade pela sua qualidade, que era requisitada regularmente para cerimónias públicas e presença regular no Jardim público, especialmente aos domingos à tarde, para concertos a que que os vianenses, em grande número, aderiam com satisfação.

Diz nos o almanaque de Viana, edição de José de Sousa, 1904, que no principio do século XX, O distrito de Viana pertencia à terceira divisão militar, com o quartel general no Porto, e à brigada do Minho, com a sede em Braga. Em Viana cidade, para além dos dois aquartelamentos já referidos, existia um centro de recrutamento militar distrital e um hospital militar, este a funcionar no antigo convento de Santo António dos Capuchos, junto ao cemitério municipal. No Castelo de S. Tiago da Barra estava instalado o regimento de Artilharia Nº 5, composto por três baterias. No quartel do Largo de Monserrate, atual Largo 5 de Abril, instalava-se o Regimento de Infantaria Nº 3, composto por dois batalhões, cada um deles dispondo de três companhias. O R. I. N.º 3 dispunha ainda de um terceiro batalhão de duas companhias, sediado em Barcelos. Com um aparato castrense de tal ordem, não estranha que a presença de militares na vida social da cidade fosse uma evidência permanente, como documentam as muitas imagens que foram sendo captadas ao longo dos tempos.

Diz-nos o Senhor Joaquim, quando faz a entrega do produto do seu labor: “fui curtinho, para não me tornar maçador. Ninguém lê pastelões. Vem acompanhado de três belas imagens, porque os leitores também gostam destas coisas”. É verdade Senhor Joaquim.
Na próxima semana damos vida ao seu trabalho no nosso Aurora, dissemos-lhe ao agradecer-lhe. “E depois subiremos o monte”, rematou ele. Lá terá que ser, pensamos nós.