O advento das redes sociais, marca indelével deste novo milénio, trouxe consigo um novo paradigma: deu voz e palco a quem nunca antes os tinha tido. E ainda que a plateia possa ser curta em falange de apoio, nesse palco todos falam, todos gritam e todos ralham, numa espécie de catarse histérica, solitária ou colectiva. Gritam, muito e muito alto as maiores verborreicas alarvidades, negando as evidências, insultando à esquerda e à direita, cilindrando ora o moderado, ora o ortodoxo, não poupando sequer os velhos ou os novos, bastando, para isso, que de si ousem discordar.

Como em casa onde não há pão, todos gritam muito e muito alto, mas nem todos têm razão, pois que esta (ainda) não se mede nem se impõe pela intensidade dos decibéis debitados, antes pela força da verdade dos factos, invariavelmente tão óbvios quanto desprezados. Claro que de nada valerá a verdade desses factos se as vozes que ainda arriscam defendê-los se diluírem, se silenciarem e se perderem entre tanto e tão irracional ruído. Calar e consentir a atrevida ausência de razão não é nem nunca poderá ser opção. E se os factos já não falam mais alto, pois falemos nós, por eles.

Este já não é o mundo de há 100 anos. Nem de há 10 ou mesmo 5. O novo ano 2020 traz-nos, com efeito, um estranho mundo novo, tomado que está pelo ódio cego e nauseabundo vomitado a partir do tal palco das redes sociais, travestido de inofensivo e legítimo “direito à opinião” herdado, quanta ironia, da revolução dos cravos que tantos visceralmente desprezam. E é precisamente sob essa capa de liberdade absoluta, e a coberto da soberba que transpiram, que tudo é permitido e ninguém é poupado. Nem novos, nem velhos, nem vivos, nem mortos. Basta pensar ou ter pensado diferente. Ousadia fatal…

Embora sabendo disto, e tendo-o por diversas vezes sentido na própria pele, confesso a minha incredulidade perante a incompreensível avalanche de grotescas alarvidades dirigidas a uma adolescente cujo nome, corpo e mensagem têm corrido mundo, agitando consciências e despertando todas as animosidades. Greta Thunberg, hoje no centro do furacão mediático, vê-se pessoalmente crucificada como que se da encarnação do próprio Belzebu se tratasse. Porquê? Porque ousou ser porta-estandarte de uma causa que mobiliza milhões de jovens genuinamente apartidários, e verdadeiramente preocupados com um futuro que lhes pertence em exclusivo, mas que muitos imbecis negacionistas teimam em associar ao espectro político de centro-esquerda, quando na realidade é uma problemática transversal a todos. A dor de cotovelo é feia e a cegueira é atrevida, mas não é desculpa para tanto.

“Deficiente mental”, “oportunista”, “perigosa”, “produto dos campos de formatação Maoista, Marxista e Leninista”, “parasita, imprestável e comunista”, “mercenária a soldo de interesses ocultos e obscuros e da nova ortodoxia de esquerda”. São estes, entre incontáveis outros exemplos, parte do inenarrável chorrilho de bojardas que dirigem a uma miúda de 16 anos e que enchem as páginas de vómito azedo em que se tornaram as redes sociais. A este fuzilamento ideológico nem o Papa Francisco escapa, pois ousando exortar os jovens a lutar pela sustentabilidade do planeta, assumiu, pelos vistos, a sua veia comunista, mostrando ser indigno da cadeira de Pedro. Sim, chegámos mesmo até este ponto: uma adolescente que merece morrer por defender aquilo em que acredita, e um Papa que é indigno porque, garantem, é comunista.

“Perdoai-lhes, Senhor, pois não sabem mesmo o que fazem”.
Esta intifada movida contra Greta e Francisco não é uma nova guerra santa. É uma guerra tonta, vazia de conteúdo e de razão. Uma sociedade que ataca o mensageiro da forma mais vil, covarde e irracional, enquanto despreza irresponsavelmente a mensagem por este transmitida, por mais irrefutável e factual que esta seja, é uma sociedade doente e condenada à extinção, e que jamais se poderá queixar que não dela própria. E a não ser que o plano B para 2020 destes novos fariseus “gretafóbicos” inclua uma fuga para Marte, padecerão do mesmo fatal destino que orgulhosamente ajudam a construir. Homens de fé, certamente.

Foto: Quartz