Não houve tarólogo, astrólogo, vidente ou qualquer outro tipo de vendedor de banha da cobra que vaticinasse o quão difícil e atípico seria este ano que, finalmente, agora termina. Nem Camilo Lourenço ou José Gomes Ferreira, crónicos e indefectíveis arautos da desgraça que, segundo eles, sempre há de vir, ou ainda Marques Mendes, uma espécie de “Maya” da cena política nacional (embora, em boa verdade, sempre acerte mais do que a original) projectavam para 2020 o que 2020 acabaria por ser: um ano perdido.

Perder um ano na já de si estreita efemeridade que é a vida é, obviamente, um mal irreparável, e é tempo que o tempo não recuperará. Mas isso não foi o pior que nos poderia ter acontecido. Pior do que perder o passado é a mais do que provável hipoteca do futuro próximo que se perfila a partir deste presente que ninguém quis, por termos todos que assumir a herança que este annus horribilis nos endossa, e à qual não podemos renunciar. Para o bem e para o mal, todos somos herdeiros de 2020 e do lastro de destruição económica, social, mas também ética e moral que nos deixa, e que não se circunscreverá aos limites dos seus 366 penosos dias, perpassando muito para lá de 31 de Dezembro próximo.

É incontornável que consideremos a situação pandémica suscitada pela galopante disseminação de Covid-19 enquanto novo centro gravítico da nossas vidas e raiz de muitos dos nossos males. É-o, de facto, mas não de todos. A desconsideração ou, no limite, a negação desta evidência só poderá advir de uma deturpação (inconsciente) da percepção geral inoculada pelos mass media que, por mais bem-intencionados que sejam – e acredito que sim – sabem que o que vende são parangonas de “pronto a vestir” ou, se preferir, de consumo imediato, que abordem o assunto do momento. São os números diários de mortes e novos infectados. São as exponenciais e inevitáveis consequências sócio-económicas, expressas em soturnos números e ainda mais negras projecções. São as vacinas (Santo Graal para alguns, cianeto para outros). É a ministra que chora. É a DGS que mente. É tudo e mais alguma coisa. Mas, na verdade, é apenas a lei de mercado a funcionar: o público pede pandemia e polémica, a indústria dos media dá-lhe mais pandemia e ainda mais polémica. Compreende-se e aceita-se que assim seja, numa lógica de mera sobrevivência editorial. Mais e mais do mesmo, para cada vez menos de tudo o resto. E esse “tudo o resto” não é de somenos. Pode ser tudo. Pode vir a ser demasiado…

Neste 2021 que se aproxima haverá, porque terá mesmo que haver, mais vida para além da pandemia. Haverá mais mundo para lá do mundo das desgraças. Haverá incertezas, dificuldades e momentos menos bons, mas também haverá vitórias, alegrias e surpresas positivas. Haverá, como sempre houve, saúde e doença. Haverá gente boa a partir, e déspotas a ficar. Haverá democratas a perder eleições, e ditadores a ascender ao poder – do qual não sairão. Haverá quem nos mostre que embora não possamos mudar os Homens do mundo, podemos, se quisermos, mudar o mundo dos Homens. Haverá exemplos, bons e maus, como haverá Homens de Guerra e alguns Homens de paz. Haverá homens brancos que matam negros e negros que matam brancos, mas também haverá aqueles que sabem que é o preconceito que tem cor, não o Homem. Continuará a haver Covid-19, mas também haverá vacinas que, paulatinamente, a irão debelar. Haverá um mundo que, afinal, sempre cá esteve, indiferente às nossas dificuldades. E haverá, sobretudo, logo após a meia-noite de 1 de Janeiro, a possibilidade de olharmos para 2020 pelo “espelho retrovisor” da vida e dizermos “já é passado”.

E é aí que deve permanecer! Quieto, silencioso e arrumado…