De véspera, Joaquim Terroso avisou-nos de que não poderia fazer o habitual e combinado passeio, porque estava ligeiramente engripado. O neto, por sua vez, tinha combinado outro giro, mas com uma jovem com quem tinha feito amizade. “Veja lá, trocou o avô por uma vianesa que encontrou circunstancialmente”, disse triste. “Mas isso é natural Senhor Joaquim”, dissemos nós, apaziguadores. “Quando novos, também tínhamos essas preferências, tomara!…”. Trancoso não respondeu, deve ter meditado no que dizer, mas não encontrou resposta. A conversa tomou outro rumo. “Olhe, para nos facilitar a vida, escrevinhei um pequeno texto sobre a demolição da igreja de Nossa Senhora de Monserrate, que lhe quero entregar. Não vamos continuar eternamente neste assunto, quando há tanto para ver e dar a conhecer aos nossos leitores. Sabe, acho que cada vez mais me sinto parte do nosso Aurora”. Também achamos que sim, respondemos convictamente, já que em cada leitor está sempre o amigo do outro lado
Para nos entregar a peça escrita Joaquim Teroso convidou-nos para tomar um café, na Brasil, próximo da Biblioteca Municipal, que também queria visitar, para cumprimentar Rui Faria Viana e Porfírio Silva, que sempre que lá vai o recebem com esmero e competência. “Também queria apresentar-lhes o meu rapaz, mas ele trocou-me pela nova amizade, mas eu sei perdoar”. Passamos ao lado do desabafo, evitando novos abatimentos. Visitas feitas, café tomado, a par de uma saudação muito especial à menina que o serviu, curta conversa, mas animada e sentida, e eis o nosso parceiro de passeio a entregar-nos o escrito alicerçado no saber legado por José Caldas sobre as malfeitorias à igreja de Monserrate. Despediu-se, atirando já de pé: “para a semana vamos subir a rua General Humberto Delgado. Quero saudar esse combatente da liberdade”. Sorrimos e, anuindo, louvamos-lhe o gesto.

Voltamos à igreja
Na semana passada, por fim atribulado, não se deu a conhecer os limites da paróquia da Senhora de Monserrate. Ei-los, segundo José Caldas, que leu a Provisão de tal: “assinamos por fregueses da dita igreja, nova Paróquia filial da Virgem Nossa Senhora de Monserrate, todos os que ora são, e ao-diante forem moradores no bairro que vai para o ponente, repartidos pela rua que vai caminho direito e começa no cais da Sub-Ribeira, da travessa do Roteia (Arroteia- julga-se), até ás casas de Pedro Melo e Alvim, e d’ahi ao longo da sua cerca, pelo caminho, até o pinhal de Santa Luzia, de maneira que o meio da dita rua seja divisão da dita paróquia velha e nova, ficando as casas e moradores da dita rua que caiam à parte do nascente pertencendo, como até agora, à Igreja e Freguesia da Matriz; e assim as que de novo se edificarem nesta direitura das casas e moradores da mesma rua que caiem para o ponente da mesma direitura fiquem pertencendo à nova Freguesia de Monserrate”.
Dirá o leitor que se dispensaria esta prosa algo atribulada, mas Joaquim Terroso considerou importante esta informação, já que alicerça a relevância da igreja demolida. E é sobre a demolição que Terroso dá por finda a história triste de um templo sagrado, de tão grande devoção dos moradores de Monserrate. José Caldas diz que a Igreja nunca mais parou de crescer e enriquecer-se em obra interior e em valor monetário. Em 1770, os rendimentos da Irmandade do Santíssimo totalizaram 550$000 reis e a despesa ter-se-á quedado pelos 300 mil, sendo certo, ainda, que as esmolas não se contabilizavam neste balanço. Vida longa se perspetivava então para esta casa de culto constituída em paróquia, que, pelos devotos, nunca deixou de ser aprimorada. Acontece que com a instalação da República, em 1910, com o argumento do combate aos jesuítas, também a Viana chegou o contágio da hostilidade à igreja, talvez mais por imitação, diz José caldas. Daí até à demolição efetiva ainda houve guerra rija, argumentando muitos que a existência de um quartel naquele local, cuja construção remonta a 1790, 187 anos depois da fundação da igreja, era mais que razão para se lhe por fim. Em 16 de Março de 1916, contra a resistência da Mesa da Irmandade as portas da igreja foram arrombadas, iniciando-se logo a demolição do templo. A justiça, por despacho de 15 de abril, ainda decretou a suspensão do ato, mas já nada poderia ser feito, dado o avançado estado da demolição.
Diz José Caldas: “e assim terminou a sua nobre e modestíssima existência após trezentos e treze anos (1603-1916, a obra que Gonçalo Esteves, Melchior Alvarez da Costa, António Rodrigues e Simão Alvarez sonharam e concretizaram”.