Quando vimos ao mundo aparecemos com a pele que Deus nos deu, de forma gratuita. A pele dos homens, ou das mulheres, de qualquer parte do mundo, são, ainda, “mistérios insondáveis”…
Aquando estudante do Curso Superior de Pintura, da Escola de Belas Artes do Porto (duas vezes por ano), podíamos concorrer ao “Prémio Rodrigo Soares” (um grande artista do passado) – “prémio monetário” – que exigia a pintura e interpretação do corpo humano a nu: (do homem ou da mulher) – e seria obrigatório a fidelidade à cor dos modelos que se nos apresentavam, em pé, ou sentados, num tabelado de madeira.
Ganhei esse prémio duas vezes (Nu artístico “Rodrigo Soares”), constituído por um júri composto por professores e mestres como Joaquim Lopes, Dordio Gomes (pintura), Barata Feyo (escultor) e Carlos Ramos (arquiteto).
Para um estudante de Belas Artes como eu, e tantos outros, a beleza da cor da pele e suas formas anatómicas era essencial… Habituado a estudar (durante dois anos) a disciplina de História da Arte Universal, orientado pelo catedrático Arão de Lacerda – desde a Pré-História, Egipto, Grécia, Roma, até à Idade Média e Renascença – ficava espantado com os trabalhos dos geniais pintores como Rubens (sueco), na interpretação das mulheres, e, ainda, Boticeli Caravajo (italiano), Miguel Ângelo, etc., até passar por Goya (espanhol): “A mulher desnuda”, por Insre, pintor francês: “As banhistas”, e ainda de Renoir, Matisse (do mesmo país), e tantos, tantos outros… Não me chegavam dezenas de crónicas, como esta, para citar todos os artistas que adoravam pintar o corpo humano, sobretudo das mulheres…
Agora, sinto-me ultrapassado, como quando vejo jovens lindíssimas, a cobrirem o seu corpo de tatuagens que, por vezes, são de muito mau gosto… Isto para não falar dos desportistas e tantos atletas de diversas modalidades, a riscar o corpo de desenhos, a negro, como “carvão”, recheados de bichos exóticos, formas abstratas e frases escritas de pessoas que desconheço – sobretudo “futebolistas” como o mais que citado Ronaldo, que acaba de comprar um automóvel por um milhão de euros, a juntar a outros veículos que já possui na sua colecção. Isto quando, ao mesmo tempo, morrem crianças e velhos, de frio ou de fome, em África, Venezuela, México, e em tantas outras partes do mundo.
Ainda bem que este último e excecional atleta, não usa tatuagens e investe o seu dinheiro na criação de emprego…
No final do meu curso de pintura, obtive “duas primeiras medalhas”, correspondente a vinte valores, com as composições “O enterro de Cristo” e a “Anunciação – ambas composições pictóricas, em tela (três metros e largura por dois de altura), que vieram parar (coisas do destino) a Viana do Castelo. O “Enterro de Cristo”, que obteve a 1ª medalha adentro da Escola, e o “1º prémio” numa “Exposição coletiva”, levada a efeito no Museu Soares dos Reis, do Porto, está na posse da família do senhor Coutinho, talvez ainda dentro do célebre prédio que mandou construir em tempos idos.
O segundo, a “Anunciação” – 3×2, que também obteve uma primeira medalha, na Escola, ficou na minha posse e ofereci-o às “Irmãs Salesianas” (em Viana do Castelo), através ou por atenção à excelente senhora e irmã Isabel Gonzalez que, mais tarde, se transferiu para a cidade de Vigo, a fim de orientar idêntica instituição religiosa que se dá por “Salesianas”.
Como sabem, a “Anunciação” descreve o facto bíblico de um Anjo que aparecera à Virgem Maria a dizer-lhe que iria ter um filho de Deus. A irmã Isabel Gonzalez nunca se esqueceu deste meu gesto e enviou-me, todos os anos, enquanto viva, pelo Natal, um postal de Boas Festas. Ela perguntava sempre pelo meu filho mais velho, o Alcininho, que lá fora educado para fazer a instrução primária.
Mas isto tudo vem a propósito das “tatuagens” que estão em voga em milhares de seres humanos, sejam homens ou mulheres, e proliferam em todo o mundo.
Se Miguel Ângelo fosse vivo (o que realizou a extraordinária estátua de David, que está colocada numa praça de Roma); e se Soares dos Reis, que de um bloco de mármore concebeu a genial escultura a que intitulou de “O Desterrado”, vissem os gatafunhos que hoje em dia poluem os corpos que inspiraram as suas obras de arte, prefeririam, talvez, ainda estar enterrados!…
Não gosto. Não há coisa mais bela que a cor natural da pele do ser humano.
Lembro-me que foi no Mu-seu Soares dos Reis, refugiado atrás do “Desterrado”, exposto nesse grande edifício, que dei o primeiro beijo, tímido, à que foi e ainda é minha mulher, há mais de setenta anos. Ainda a namorava, então.
Fico hoje por aqui.

(Imagem: “Educando tudo muda”)