A educação inicia-se no berço, através dos progenitores, continuan­do no espaço familiar e na escola, ajustando-se, pela vida fora, numa conjugação de direitos e deveres, atenta uma manifesta vontade de evitar pântanos humanos.
Vem isto a propósito poder afirmar que temos vindo a conviver, com bastante espanto, face às crescentes informações sobre escândalos de corrupção, aliados, possivelmente, à falta de princípios educacionais, atenta uma acervação progressiva, tangível, sempre, por força dos contactos pessoais.

A acção ou o resultado de corromper ou de se perverter, assume, sem dúvida, a degradação ou deterioração dos valores morais, ou dos bons costumes. Após a revolução dos cravos, porque, naquele tempo, para o efeito não existiam estatísticas, dado ser tudo opaco, a situação do pais tem vindo a ser abalada no vetor da corrupção, até chegar a este estado vergonhoso do momento presente. Caminha-se num rodopio constante de casos a decorrerem em tribunal, ou a serem averiguados pelas diver­sas forças policiais.

À medida que as investigações prosseguem, crescem os valores, que chegam a cifras estratosféricas, através das contas bancárias, ligado, tudo, a listas de envolvidos relacionados com empresas e políticos, nu­ma busca carregada de pragmatismo e bastante assídua, que vincula, para inquirição, os seus intervenientes.

Ao lado da apreensão com o montante dos desvios, a pressuposição das perdas deles decorrentes e o angustiante medo da crónica impunida­de, vêm à tona algumas preocupações ainda mais desanimadoras. É que na base de muitas situações observadas estão não atitudes pontuais e mesmo excepcionais, mas a manifestação de um comportamento antigo no qual o desejo de levar vantagem, a despreocupação com o outro e o oportunismo patenteiam-se numa escala progressiva.

Acabamos por caminhar em direcção a duas soluções, que baseado na lógica popular, poderei concluir:
– Uma delas é a de que muitos dos que não estão envolvidos nos su­miços ou roubalheiras, apenas não figuram na lista, porque lhes faltou oportunidade. Se esta houvesse, muitos outros, talvez tivessem procedi­do, absolutamente, da mesma forma. A outra é a de que na base desses comportamentos está um afrouxamento moral e uma ausência de valores. São problemas que podem ser observados em diversas atitudes, nas quais as cifras são muito menores, mas o nível de desonestidade é sempre comparável.
Temos a sensação, então, de que esses escândalos são, na verdade, a ponta do icebergue e que as questões da nossa sociedade são ainda muito maiores, muito mais enraizadas, enfim, muito mais difíceis de serem sanadas.

Um amigo meu, que se desloca com muita frequência, no seguimento do seu trabalho, teve de efectuar uma viagem intercontinental, a fim de resolver casos pendentes. A bordo do avião sentou-se ao lado de uma mu­lher bastante nova, toda harmoniosa, sorridente, de curvas vistosas, bem falante, notando-se, em paralelo, um perfume agressivo, que o olhou dos pés à cabeça. No decorrer da viagem tiveram tempo para conversar, abor­dando os mais variados temas. A certa altura, numa prospecção de comportamento, atreveu-se a propôr-lhe mil euros por um encontro. Ela olhou-o, a sorrir, mostrando surpresa, mas continua a conversar e aceita a propos­ta, entusiasmada, porventura, com a possibilidade de receber umas massas de forma tão fácil. No final da viagem, porém, ele admite não ter esse valor.

Perguntou-lhe, então, se aceitaria cinquenta euros.
Ela, mostrando-se ofendida, respondeu:
O que você pensa que eu sou?
Ao que ele, calmamente, a sorrir, adjectivou:
O que você é já está definido. Agora, só precisamos de acertar o preço.
Quase que, imperceptivelmente, começamos a ver um desvio ético com olhos diferentes, a depender das circunstâncias, dos atores ou dos mon­tantes envolvidos.

É preciso atentar para o facto de que as insignificantes manifes­tações de desonestidade, que se tornam quase rotina, são parte dessa mesma enfermidade, que tem condenado o nosso país a prejuízos irreparáveis a pagar pelos impostos dos contribuintes.

Vivemos uma excelente ocasião para o combate a odiosos crimes que terminam por causar sofrimento a uma população penalizada por impostos encobertos, na calha dos indirectos. Tudo aliado a deficiência ou falha de ordem e organização nos mais variados sectores dos serviços públicos que servem o consumidor, alegando falta de recursos ou, definindo me­lhor, de desastrosa gestão deles.

Os tribunais, consubstanciado pelos seus juízes, têm vindo a perder o medo, se assim se pode chamar, perante os poderosos, que já têm sido, alguns, presos e encontramos, agora, um ex-político a cumprir pena de recluso.

Mas não apenas só isso. Temos uma excelente oportunidade para analisar, em nossa postura diária, e nas mínimas coisas, quais os valo­res que têm norteado a nossa conduta cívica e, especialmente, os nossos relacionamentos.

No nascedouro de cada uma dessas reprováveis acções, que aparecem, diariamente, como formigas a entrarem e a saírem da toca, encontramos, sempre, vários corações movidos pelo egoísmo e pela ausência de princípios educacionais.

Nota: Este conto, por vontade do autor,
não segue a regra do novo acordo ortográfico.

Foto: O Jornal Económico