Muito se tem dito e escrito sobre os “Caminhos de Santiago”. Buscando a história do Apóstolo, a demanda dos caminhos feita pelos peregrinos-caminheiros foi-se construindo, como uma teia, mas sempre com um ponto comum, o de chegada a Santiago de Compostela, começando desde logo pelo “Caminho”.

Primitivo”, que parte de Oviedo. Depois, muitos foram os caminhos percorridos e “construídos” pelos peregrinos-caminheiros, provenientes de vários lugares, de aldeias, de vilas e cidades.

Para o cidadão comum são sobejamente conhecidos o “Caminho Francês”, que parte de Saint-Jean-Pied-de-Port, nos Pirenéus, e a “Via da Prata”, que parte de Sevilha, no sul de Espanha. São os caminhos mais longos, porventura os mais famosos e, por isso, os mais procurados e percorridos.

Mas para nós, portugueses, o “Caminho Português do Interior”, talvez o mais antigo e o “Caminho Português da Costa”, de divulgação mais recente, têm vindo a ocupar posição relevante na procura pelos peregrinos-caminheiros, quer nacionais, quer estrangeiros, que imbuídos de muita Fé, ou por uma intensa necessidade de um tempo de introspeção para atenuar o frenesim da sua vida quotidiana, se aventuram num destes caminhos, que os levarão até Santiago.

Caminhos constituídos por várias etapas, que podem ter entre 20 e 30 kms cada uma, dependendo da morfologia do terreno que vai ser pisado. Mas são sempre caminhos belos, carregados de muito carisma e simbolismo.

Há uns anos a esta parte que integro um grupo de caminheiros denominado “Caminheiros Rainha Santa”, porque nestas coisas, ter nome é sinónimo de unidade, de determinação e, acima de tudo, de solidariedade. E sendo um grupo constituído por pessoas diversificadas, novas e de meia-idade, com profissões várias, a sua forte união resulta da enorme vontade e alegria em caminhar. Um grupo mais ou menos alargado, constituído por bracarenses e vianenses, para quem caminhar é tão só uma necessidade de bem-estar.

Depois de percorridos, alguns mais que uma vez, o “Caminho Português do Interior” (2012), o primeiro, o “Caminho Português da Costa” (2016), que passa por Viana do Castelo, e o “Caminho da Geira e do Arrieiros” (2019), que parte de Braga, os guias e mentores do Grupo, o Alberto, o Diamantino e a Sónia, acharam por bem ir em busca de novas experiências.

“Muitos lugares, aldeias e vilas, estão bem afastados dos caminhos ditos principais. Como chegavam então os peregrinos oriundos desses lugares, ao caminho principal mais próximo? Pois, usando um caminho secundário”.

Feito um aturado estudo às possibilidades que se deparavam, encontrou-se!… Encontrou-se um caminho que, tudo leva a crer, foi percorrido pela nossa Rainha Santa, Dª Isabel de Aragão, esposa do nosso Rei Lavrador, D. Dinis, na sua “segunda peregrinação” a Santiago de Compostela.

Um caminho belo, mas muito pouco conhecido, apesar de marcado em mapa (Moreno/1986). Notoriamente, um caminho que constatamos ser muito pouco frequentado, “O Caminho de Santiago pela Portela do Homem, Gerês” (Jorge Louro – http://asnotasparaomeudiario.blogspot.com).

Momentos houve, em que a necessidade de desbravar mato crescido e silvado, bem como afastar ramadas de arvoredo tombado, se tornou um imperativo para continuar no “bom caminho”. Valeu-nos o João e o seu equipamento para estas ocorrências.

Noutros momentos, a beleza da paisagem natural, a monumentalidade e a História entrepunham-se, proporcionando encanto e arrebatamento. São bons exemplos, entre outros, o “Aquartelamento Romano”, o “Mosteiro de Cela Nova”, a “Torre do Infante”, o “Santuário das Marabillas”, o “Parque Natural de S. Rosendo”, a “Catedral de Ourense”, a “Abadia de Osera”.

Mas o Grupo conseguiu! Depois de percorridas quatro etapas e +/- 120 kms, eis-nos “desaguados” na “Via da Prata”. A partir daí, o caminho está perfeitamente delineado e assinalado com a simbologia normalizada – a “concha de vieira”, que remonta à ”Lenda do Matizadinho”, e a “seta amarela”, desde 1984, por iniciativa do sacerdote d’O Cebreiro, Elías Valinã (Paulo Almeida Fernandes: “O Caminho de Santiago de Compostela” – Ego Editora, julho 2020).

Gostaríamos que outros amantes do “Caminho” experienciassem esta gratificante caminhada. Para isso, nada melhor que deixar-vos aqui todo o “Caminho da Rainha Santa”, o traçado e as suas etapas, que poderão ser subdivididas, “se o corpo o pedir”. Se forem, sejam felizes.

F. Manuel Rodrigues