O calendário proporcionava quatro evidências claras de mutação ao longo do ano; o dia e a noite eram extremos que se sucediam quotidianamente; as pessoas mudavam significativamente segundo avançavam de infantes para idosos. Parecia  razoável que, pela fadiga que causa, ninguém se apegasse ao que está em constante mudança. A dúvida, fosse descrente ou como meio de chegar à certeza, flutuava como pena ao vento. Uma lei física já demonstrara que a natureza nem cria nem destrói e o que existe entre a vida e a morte é o tempo de transformação da matéria.

O cessamento físico da vida era o ‘nada’ que inspirava tantos filósofos e o ‘tudo’ que angustiava quem estava à sua espera. A existência era, pois, transitória, talvez por não ser possível conhecer com precisão, e simultaneamente, as duas grandezas tão intimamente relacionadas como são a vida e a morte. A imobilidade do corpo inerte associava-se com o fim do ser, enquanto que a vida era o equilíbrio de forças atuando em sentidos contrários.

O espírito indolente unificava-se na inércia imperturbável de quem baixa ao sepulcro, ainda que a falta de certezas impelisse outros pela encosta da dúvida. A ordem das coisas não vinha exigida pelos objetos, mas pelo sujeito observante que, pela imperfeição dos seus sentidos, elaborava leis para fazer inteligível os fenómenos, até que conhecimentos mais aprofundados o obrigassem a rever os erros. Daí a locução latina Errare humanum est.

Um dia a alta tecnologia atingiu a artificialidade quase que inteligente e quiseram convencer-nos da preeminência dos seus processos de computação. Podia controlar-se toda a humanidade em tempo real, reduzindo radicalmente os custos de policiamento. Os exércitos já nunca mais precisariam de soldados no campo de batalha, nem pilotando os aviões de combate. As pessoas seriam dispensadas de trabalhar para entregar-se ao lazer. Depois um microrganismo acelular desatou uma pandemia universal e as tão elevadas tecnologias não nos socorreram. Mais uma vez foram os humanos com competências em gestão de mudanças, dúvidas e erros, a resolver o gravíssimo problema social. A inteligência humana sabe-se imperfeita e carateriza-se pela humildade para emendar os erros quando são detetados.

A dúvida, metódica ou cética, ilumina o transitório caminho da existência. Se não queres que os outros tirem a tua paz, não te aferres ao que é mutável pois só perdes aquilo a que te apegas. Sai e procura o equilíbrio de forças contrárias que conformam a vida porque a única coisa que é eterna é a incerteza do fim.

 

Rudesindo Soutelo

Academia Galega da Língua Portuguesa.

Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música.