Situada no lugar do Outrêlo, na freguesia de Vila de Punhe, ali convergiam muitos dos meus colegas, oriundos das freguesias vizinhas de Mujães e Barroselas, residentes na área dos lugares de Arques, Milhões, Regos – Neves.

Era a única escola do meio. Hoje, aquele edifício serve de sede à Junta de freguesia de Vila de Punhe.

Foi mandada construir no estilo do Plano dos Centenários, pelo regime deposto, no século passado, assim como muitas outras por esse país fora.

Frequentada por rapazes e raparigas, quase todos nos deslocávamos para ali permanecer de pé descalço.

Na sacola de cotim azul ao tiracolo, levávamos a ardósia preta envolta num quadro em madeira de pinho, lápis da mesma matéria e livro correspondente à classe que frequentávamos. Julgo que apenas mais um caderno de duas linhas para fazer alguns exercícios e mesmo talvez uma sebenta.

A escola estava rodeada de árvores altaneiras, entre elas uma amoreira, plantada na parte posterior do edifício.

As amoras eram grandes e brancas como raramente se vêm hoje e as folhas serviam de sustento ao bicho-da-seda. De vez em quando, lá atirávamos uma pedra para os galhos para que os ditos frutos caíssem, matando a fome a muitos de nós.

Mas a ânsia de as apanhar para comer e sem tempo para pensar nem deixar cair o respetivo fruto, era o risco que se corria. Ignorância e traquinice próprias daquela idade!.

Também, sempre que um aluno faltasse às aulas, lá ia a empregada a casa saber porque faltou. Havia também o vício da caça aos passarinhos com ratoeiras feitas em arame e mola de aço. Normalmente eram percorridas as terras do Outrêlo e Chasqueira, lugares de Vila de Punhe, até ao limite de Alvarães sendo colocadas ao fim da tarde e recolhidas na manhã seguinte, com presa ou sem ela.

Na época, a escola não estava rodeada de casas de habitação, como hoje acontece. Predominava, a plantação do milho e centeio. Esses campos eram regados pelo rio e existia ainda um lavadouro onde todas as mulheres das redondezas iam lavar as roupas aproveitando essa faina para pôr as conversas em dia. Também transmitiam através das suas canções o que lhes ia na alma.

Mais acima para norte, havia a “Fonte do Outrêlo” onde quase todas as famílias ali à volta se abasteciam de água para consumo próprio servindo-se de cântaros de barro e outros utensílios. Minha mãe, tal como outras mulheres, era uma assídua frequentadora da fonte, pois tinha em casa nove pessoas. Com o cântaro de 20 litros de água à cabeça, fazia várias vezes ao dia esse trajeto, numa distância de mais ou menos 600 metros. Quando cheio, era sempre a subir. Imagine-se o esforço daquela gente!

Naquele tempo era assim! Os poços de água eram raros e os meios financeiros, obviamente escassos para a sua construção. De água canalizada nem se falava! Já la vão umas seis dezenas de anos.