Homens fortes criam tempos fáceis

Tempos fáceis criam homens fracos

Homens fracos criam tempos difíceis

Tempos difíceis criam homens fortes

(Provérbio oriental)

 

Pertenço a uma geração que herdou um país desgraçadamente falido e destroçado.

Falido de valores e de substância.

Um país da ditadura, do atraso, com um cheiro bafiento a PIDE e a Salazar, a oligarcas e militares, a padres e senhoras finas.

Um país com um sistema educativo incipiente, sem serviço nacional de saúde, sem emprego qualificado, sem justiça digna, sem vias de comunicação, um lugar longínquo onde cada pessoa era uma ilha.

Um país com elevadíssimo analfabetismo, onde em cada turma do secundário, apenas um aluno ia para a universidade.

Um país onde, nas escolas, os rapazes e as raparigas estavam fisicamente segregados, não fosse o diabo tecê-las.

Um país cinzento onde o sorriso não tinha lugar, pois a censura encarregava-se de o apagar.

Um país em que milhares de homens tinham partido para França, onde a reconstrução do pós guerra lhes proporcionava trabalho duro, mas também dinheiro para não morrer de fome. Ah, com a consequente separação familiar, já que nas primeiras vagas de emigração as mulheres e os filhos ficavam por cá, à espera de uma vida adiada, por vezes para sempre.

Um país que também nos entregou como herança 13.000 mortos e 30.000 deficientes físicos de uma guerra sem sentido, não contando com os milhares com sequelas mentais que perduram até aos nossos dias, ou que morreram com os que já partiram.

Herdamos, portanto, um país abaixo de zero.

Pessoas fortes criam tempos fáceis, e a partir desse desgraçado patamar, ajudamos a construir o que somos hoje.

A revolução abriu portas inimagináveis. Com a liberdade conseguimos estudar, trabalhar, lutar por condições, com sacrifícios hoje difíceis de perceber. Provamos que era possível construir algo a partir da miséria, porque tempo difíceis criam pessoas fortes.

Com muitos problemas pelo meio o país foi andando, primeiro aos solavancos, com avanços e recuos, depois com o assumir da democracia parlamentar.

Este caminho não foi e não é consensual, mas a democracia faz-se assim mesmo.

Quer se queira quer não, estamos em patamares inimagináveis. Só quem já nasceu em democracia pode ter dúvidas quanto ao que éramos antes e ao caminho, entretanto percorrido. Quem viveu em ditadura percebe bem a transformação que ocorreu neste país.

As gerações de hoje não estão, na minha ótica, tão desamparadas como muitas vezes se quer fazer crer. Têm coisas que a minha não teve: famílias com mais capacidade de apoiar e qualificações incomparavelmente diferentes daqueles tempos, por força de uma realidade com inúmeras possibilidades, mais aberta, estruturada e desenvolvida do que nunca.

Ao fim de 46 anos estamos, dizem, perante a geração mais bem preparada de sempre. Mais qualificada, seguramente. Talvez também com menos necessidades de lutar, porque os níveis de comodidade aumentaram muito. Mas certamente, e cada vez mais, com possibilidades de construir muito mais do que aquilo que nós conseguimos.

Existem, não obstante, obstáculos.

Os problemas na distribuição da riqueza, na minha ótica os mais flagrantes, a corrupção instalada, o apanágio do individualismo como doutrina social, o ressurgimento de projetos radicais que no passado levaram a Europa à guerra e à destruição, a ausência de solidariedade e de valores de humanidade, são perigos que espreitam.

Contudo, a sociedade já não tem uma necessidade absoluta e premente de bens, mas tão só uma urgência de valores que conduzam ao bem-estar de pessoas em comunhão com outras pessoas.

Uma sociedade que, pelas suas virtudes, se sobreponha aos radicalismos milagrosos que nos oferecem todos os dias, e que são inaceitáveis num projeto democrático como é o nosso. A democracia tem uma oferta diversificada de soluções para todos os gostos, mas não pode incorporar projetos tendentes à sua própria destruição.

Apesar de todas as dificuldades destes tempos, há um caminho para fazer, e pode ser um percurso com motivações, porque tempos difíceis criam pessoas fortes.

José Carlos Barbosa