Apesar de ter mais de sessenta anos, tenho saudades do tempo em que o professor primário (sobretudo as professoras, pois estas eram em maior número) era, a par do senhor padre, das pessoas mais consideradas na aldeia, na vila, ou mesmo na cidade. E isto devia-se a muitas razões: à nobreza da sua profissão, ao prestígio da sua missão social, ao carinho que dedicavam aos seus alunos, mas sobretudo à sua entrega, ao trabalho e empenho que punham no ensino (às vezes com algum rigor a mais…). Os alunos saiam da escola dita primária a saber. Ainda hoje, quase todos os dias, encontro pessoas com a quarta classe antiga a orgulharem-se de saberem mais (apesar de só terem estudado na sua meninice), do que os seus netos, que andam no ensino básico (agora até ao 9º ano…). Evidentemente que isto não é só culpa dos professores (se calhar, os professores sãos os que menos culpa têm), mas adiante, que este assunto daria pano para mangas e o tema do meu artigo de hoje é homenagear o “velho” professor primário, e não a crítica ao atual ensino…lá iremos um dia destes…

Lembremos, que as condições pedagógicas e materiais desses “velhos professores primários” eram miseráveis, se comparadas com as condições que hoje existem…, senão vejamos: o material didático de que dispunham era mínimo (um quadro, um mapa, a velha lousa, giz, e…a célebre “Santa Luzia”, que fazia milagres…); ensinavam, quase todos, quatro níveis (ou como então se dizia, quatro classes), e naquele tempo as escolas estavam cheias (as nossas aldeias ainda não estavam despovoadas); as escolas não tinham as mínimas condições (em muitas aldeias e lugarejos, pouco mais eram do que miseráveis salas), sem aquecimento, nem as mínimas condições de higiene; muitas dessas escolas ficavam isoladas, muitas não tinham estrada (obrigando o professor a viver nessa aldeia); e para culminar, para além de baixos vencimentos, não ganhavam (muitas vezes) nas férias, uma vez que era escasso o número de professores efetivos, para não falar dos chamados “postos”. Ainda hoje nos queixamos…

Apesar de tudo isto, a sua dedicação era extrema, ao ponto de levarem os alunos, depois do horário escolar, para as suas casas e aí continuarem a ensinar, dando-lhes muitas vezes um pequeno lanche, lanche esse que muitos não teriam em sua casa. Tinham orgulho nas notas do exame dos seus alunos, havendo mesmo, uma grande, mas saudável, rivalidade com os colegas, para verem quem tinha mais resultados positivos e alunos com distinção nas provas. Estes verdadeiros heróis da instrução popular, porque o foram, ainda hoje merecem o carinho e o reconhecimento dos seus antigos alunos. Em Viana do Castelo, estudei no Colégio do Minho e mais tarde, como mudássemos de residência para a Rua da Bandeira, frequentei a Escola do Carmo. Eu próprio, quando vejo, o meu “antigo” professor, o Sr. Professor David, logo me dirijo a ele, para o cumprimentar e agradecer o quanto fez por mim. Estes homens e mulheres, merecem uma justa Homenagem de todos nós. Foram heróis “anónimos” que, por lugares sertanejos, isolados, sem condições, deram o seu melhor, por vezes com tanto sacrifício e incompreensão…É verdade que, muitas vezes, os seus “métodos pedagógicos” não eram os melhores (lembro-me da odiada “Santa Luzia”, a horrível palmatória, que nos atormentava o espírito e nos empolava as mãos…), mas eram outros tempos e outras mentalidades…Esses métodos pedagógicos eram condenáveis, bem o sabemos por experiências própria…, mas às vezes um puxão de orelhas ou um mosquete (sem magoar…), dados na altura certa, fazem milagres…Não havia as faltas de educação que hoje se vêm em algumas das nossas escolas, mas, os professores, também se davam ao respeito, davam o exemplo e eram considerados por toda a sociedade como modelos de educação e civismo.

Não quero dizer, longe de mim tal ideia, que era tudo um “mar de rosas”, nem pensar, os métodos e conteúdos do ensino (sobretudo da era salazarista) eram, por vezes, condenáveis, como, por exemplo, os exagerados castigos corporais e o excesso do recurso à memória. O que eu quero elogiar são os professores, as pessoas que, por essas aldeias fora, ensinavam os meninos e meninas (essas menos, infelizmente…porque a mentalidade retrógrada da época era que as mulheres deviam ficar em casa a fazer “o comer” e “cozer as meias” dos homens…) a saber ler, escrever e contar (coisa que hoje só sabem fazer com o auxílio da máquina calculadora).

Como já disse, estas mulheres e homens, que tanto nos deram e a quem a cultura do povo (e não só) tanto devem, têm de ser muito justamente homenageados. Aqui fica uma chamada de atenção para os “políticos” (e quem de direito), para se fazer uma HOMENAGEM AOS VELHOS PROFESSORES PRIMÁRIOS. Hoje em dia, há o dia disto mais daquilo, fazem-se homenagens a “torto e a direito” e, por vezes, esquecem-se aqueles que mais merecem…E eles merecem-no!

Aqui fica na, “A Aurora do Lima”, a nossa homenagem ao professor primário. Esperemos que os “políticos” não se esqueçam de os homenagear, enquanto, muitos deles, ainda estão vivos…