A minha terra é Viana

Sou do monte e sou do mar

Só dou o nome de terra

Onde o da minha chegar.

Ó minha terra vestida

Da cor da folha da rosa

Ó brancos seios de Perre

Vermelhinhos de Areosa

 

Virei costas à Galiza

Voltei-me antes para o mar

Santa Marta saias negras

Tem vidrilhos de luar.

 

Dancei a Gota em Carreço

O Verde Gaio em Afife

Dancei-o devagarinho

Como a lei manda bailar

Como a lei manda bailar

Dancei em fila a Tirana

E dancei em todo o Minho

E quem diz Minho diz Viana.

 

Virei costas à Galiza

Voltei-me então para o Sul

Santa Marta saias verdes

Deram-lhe o nome de azul.

 

A minha terra é Viana

São estas ruas estreitas

São os navios que partem

E são as pedras que ficam.

È este sol que me abrasa

Este amor que não engana

Estas sombras que me assustam

A minha terra é Viana.

 

Virei costas à Galiza

Pus-me a remar contra o vento

Santa Marta saias rubras

Da cor do meu pensamento.

 

 

(Poema de Pedro Homem de Mello e música de Alain Oulman – Cantado por Amália Rodrigues (acompanhada à guitarra por Fontes Rocha e à viola por Martinho d’Assunção), no CD Cantigas numa língua antiga – Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho em Paço de Arcos – Técnico de som: Hugo Ribeiro; Montagem digital: Fernando Paulo; Fotografia: Augusto Cabrita e Capa de Manuel Correia)

 Este poema é, para mim, o poema mais bonito sobre Viana, por isso o quis partilhar consigo. Pedro Homem de Mello escreveu poemas muito sublimes, alguns deles sobre Viana, e este nem é o mais famoso, mas é deste que eu mais gosto. Não sei que magia tem, está cá toda a cidade e região vianense. Viana tem homenageado este grande Poeta, mas penso que se deveria fazer uma homenagem com muito maior e muito mais abrangente.

Publicar agora e aqui este poema, é o meu pequeno contributo para essa homenagem de agradecimento e consagração que o Poeta merece.

Só quem gosta e vive fora de Viana do Castelo, é que pode entender a saudade que se sente quando não se podem percorrer as suas ruas estreitas, não se pode ver o Lima, o mar, saborear um petisco na Ribeira…Sim eu sei que se podem fechar os olhos e ver Viana com os “olhos da alma”, mas dói muito, mesmo muito…Quem lá vive, nem sabe o privilégio que tem, uma vez que a vê e “sente” todos os dias na sua vida diária. Quem está fora sofre, sofre de saudade…Por isso, eu quis partilhar consigo este poema do Poeta, cantado pela diva Amália Rodrigues (também como homenagem, uma vez que se comemora agora o seu centenário), que eu ouço quase todos os dias no meu automóvel. É um “avivar” da minha memória, é um sentir-me em casa, é imaginar que estou na minha Viana, na minha Princesa Encantada. A Princesa do Lima é um lugar mágico, onde a nossa alma, por qualquer processo alquímico, se transforma, não em ouro, mais do que isso, em amor, em ternura, em êxtase…O Lethes, o rio do esquecimento da mitologia, é uma “pátria” de poetas, pois a sua beleza enfeitiça a alma. Viana já entraria no ciclo das festas (não fosse a pandemia) e…que Agonia é não poder assistir, como nos outros anos, à Nossa Senhora da Agonia…. Que o amigo leitor aproveite estas férias e que “cresça” ainda mais o seu amor por Viana e pelo Alto Minho. Boas Férias!