Há cerca de quinhentos anos iniciava-se, em Portugal, uma época dramática da sua História, ao integrar a Inquisição no seu ordenamento oficial, que deixou um trágico rasto de perseguições, mortes em fogueiras e nas prisões, bem assim como milhares de condenados a outras penas e um sem número de desaparecidos.

Durou este drama cerca de trezentos anos e tudo em nome da religião cristã, cujo fundador, Jesus Cristo, de certeza que nunca o abençoou, apesar de emanar da representação máxima da Igreja Católica, ainda em busca da sua afirmação global.

Estamos, agora, em pleno século XXI, depois de profundíssimas convulsões e alterações sociais num mundo que não tem nada a ver com aquele de há quinhentos anos, mas, nesta evolução imparável, assiste-se ao ressurgimento de perigosos poderes que visam condicionar as pessoas, com recurso a formas um pouco à imagem das usadas pela Inquisição. Não são utilizadas piras para reduzir as pessoas a cinzas, mas usa-se a praça pública como um assador para as deixar bem queimadas!

Um desses poderes é utilizado por uma certa comunicação social, não séria e informativa como deveria ser o seu papel, mas virada para o bombástico, através de um jornalismo pretensamente de investigação que mais não visa do que obter audiências, após o que se vangloria de tais feitos não interessando os métodos utilizados tantas vezes ilegais.
Promovem-se julgamentos públicos através de programas televisivos indecorosos, recorrendo-se ao poder das imagens que todos sabemos o poder que despertam. Imagens legais, umas, mas muitas outras obtidas cobardemente com câmaras ocultas e, portanto, ilegais, por não serem autorizadas pelos visados. Espanta-me, neste particular, que o sistema judicial da nossa democracia não tome medidas, e que os deputados, sobretudo os das esquerdas, sempre tão preocupados com os direitos dos cidadãos,

não estudem e proponham medidas legislativas compatíveis.
Recorrem, esses profissionais dos media, a pessoas que se acobardam, por não possuírem coragem de dar a cara e assumirem as acusações que fazem. As televisões são o veículo preferencial, porque entram a qualquer hora nos lares das pessoas, e, desta forma, se pretende condicionar as suas mentes, originando com isso comportamentos hostis e agressividade social tantas vezes sem suporte. Como acreditar em acusadores sem rosto, sem personalidade e sem legitimidade? Como acreditar numa comunicação social que procura o pior das pessoas para poder evidenciar-se?

Há programas simplesmente nojentos que passam em dois ou três canais televisivos bem identificados, porque parecem viver apenas para causar danos, em muitos casos irreparáveis. Jornalistas com a arrogância de inquisidores chegam ao desplante de exigirem, como se fossem juízes, a presença nos programas de certas pessoas, só pelo facto de serem responsáveis máximos de instituições, em exercício, para os exporem a acusações que lhes são feitas por indivíduos não identificados que agem a coberto de interesses inconfessáveis. Era só o que faltava, irem esses responsáveis máximos entrar no espectáculo degradante da má-língua para alimentarem audiências e fazer subir o score das televisões.

Tenho, naturalmente, de me colocar do lado destes responsáveis das instituições, na medida em que é minha profunda convicção de que eles só têm que responder e dar satisfações a quem os nomeou para as funções, ou a quem os tutela, e não entrarem em espectáculos pirosos para o povo ver. De resto, há mecanismos oficiais perfeitamente confiáveis para investigarem e validarem, ou não, os comportamentos dos dirigentes e de outros visados. É neste contexto que enfatizo a posição do Sr. Comandante-Geral da Guarda Nacional Republicana, por não ter acedido à exigência de uma jornalista mentalmente alterada, que pretendia a todo o custo a sua presença no programa televisivo de uma estação vocacionada para suscitar julgamentos públicos. Fez bem este senhor General ao ignorar a fogueira, devendo estar ciente, no entanto, que o cerco à sua pessoa está montado.

A inquisição é passado, e causou profundo sofrimento às gentes da época. Nos dias de hoje, e à falta de ideias, estamos em presença de uma espécie de jornalismo por encomenda que pretende ressuscitar, de forma arrogante, mecanismos condenáveis de controlo social. Defendo, aplaudo, colaboro e sou admirador de uma comunicação social livre, mas que respeite os princípios da ética e a deontologia jornalística. Não aceito, e por isso não posso deixar de anatemizar, o jornalismo de sarjeta, que se alimenta de fontes que, cobardemente, tapam a cara ou se valem da sua posição de dirigentes sindicais para lançar acusações que, na sua actividade profissional normal, não teriam coragem de o fazer.