Por oposição ao paganismo, durante séculos, o Cristianismo opôs-se às representações teatrais. Desde logo, pelo facto de o teatro descender de ritos divinatórios pagãos, como o culto ao deus Dioniso, na Grécia Antiga. No século II d. C., Tertuliano de Cartago apontava três razões para a oposição entre teatro e teologia: 1) as Escrituras condenavam os espetáculos; 2) os lugares do teatro, assim como o equipamento usado (p. e. máscaras) e intenções (representação de mitos e deuses) eram idólatras; 3) enquanto Deus desafiava a Humanidade a viver em paz, amor e serenidade, o teatro, pelo contrário, incentivava as paixões, a insensatez e o excesso.

O próprio Santo Agostinho, no séc. IV, opõe-se à ideia de catarse pelo teatro através da qual, por meio da representação da dor e da angústia de outrem, o público se expurgava simbolicamente dos seus males. Ao contrário, e de acordo com o Cristianismo, Agostinho defendia que a dor só era uma emoção honrosa se acompanhada de piedade por quem a sofre. Se, pelo contrário, no teatro, chegássemos a desejar a dor de outrem como forma de obtermos compaixão ou alívio para nós próprios, tal era condenável. Mas, já no séc. VII, no Império Bizantino, São Teodoro considerou que se o sagrado se podia tornar visível aos olhos, através da iconografia, então tal podia também acontecer com a imagem ao vivo, ou seja, através da representação teatral da história sagrada.

Esta possibilidade encontrou uma justificação determinante na ideia de que o teatro poderia ser uma ferramenta de evangelização, principalmente para os que não sabiam ler e compreender a Bíblia escrita. Nasce desta forma a possibilidade de um teatro cristão enquanto Bíblia Pauperum, uma Bíblia dos Pobres. A partir daí, o teatro de cariz religioso não só evoluiu exponencialmente como, também, e através do poder da Igreja, se impôs como cânone ao longo da História, imbuído de objetivos de catequese e celebração da moral cristã.

Daqui descendem as representações dos autos da Paixão de Cristo que tinham, e ainda têm, a função de ilustrar de forma vívida os episódios bíblicos que se celebram na Semana Santa. De resto, esta representação continua amplamente disseminada por todo o Mundo. Ancestralmente teatral, ela apenas se transferiu, através da tecnologia, para a televisão, o cinema e o digital.