Há uns bons anos atrás, li algo do género: um rei ou Imperador, presumo que num país da Europa Central, logo que tomou o poder, encetou um trabalho de profunda criação legislativa, aproveitando, ou não, algo das normas régias, provavelmente existentes, mas, sobretudo, produzindo leis, decretos e demais parafernália legal, com o superior objetivo de a sua pátria funcionar às mil maravilhas, de modo a que o povo disfrutasse de paz, ordem, segurança de pessoas e bens, justiça, prosperidade e, claro, felicidade.

O certo é que, passados anos, fiquei intrigado com este facto histórico e quis revisitar esse texto, mas, apesar de muitas buscas na internet e de igual procura na minha modesta biblioteca, acabei por não encontrar nada sobre tão estranho e admirável caso. Prever tudo, prevenir situações desagradáveis, arrumar ideias, não deixar nada sem rótulos, segurar todas as pontas, acautelar perigos e fugas à lei, tudo lógico, tudo explicado, tudo perfeito. Isso parece, a princípio, um ótimo propósito. Todos nós, no início da nossa vida ativa ou familiar, queremos o mesmo que esse cauteloso monarca. No entanto, ao fim de certo tempo, verificamos, por vezes com amarga deceção, que nada aconteceu como almejávamos. Nem tudo, nem mesmo o essencial, correu bem. Costumamos até dizer, para nos consolarmos ou para manter a esperança; “Deus escreve direito por linhas tortas”.

Como disse acima, não sei concretamente o que se passou nesse misterioso reino, tendo como base os dados que apontei acima e, também, a época em que ocorreu tal facto. Seria, creio, no século XIX. Pior foi ficar sem saber o verdadeiro resultado desse propósito, nos anos seguintes. Mas tendo em mente que isso ocorreu no século XIX, e num país da Europa Central, a conclusão é, infelizmente, triste ou mesmo catastrófica.  Como sabemos, essa parte da Europa sofreu, anos depois, no século XX, duas sangrentas tragédias e inúmeras convulsões sociais, e assim sendo, as consequências desse bem intencionado trabalho, foram, direta ou indiretamente, as piores.

Este facto que trago para reflexão, foi suscitado, agora, pela visão de um documentário interessantíssimo que passou na RTP 3, no passado dia 4 de Maio, pelas 21,00 horas, sob o título “O Defensor da Fé”. Vi o documentário duas vezes (aproveitando a possibilidade técnica da sua gravação automática). O Defensor da Fé é o Cardeal Joseph Ratzinger/Papa Bento XVI, que, durante mais de um quarto de século, governou, efetivamente, a Igreja Católica, quer como Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (23 anos), quer como Papa, durante 8 anos. Nos casos do monarca e de Joseph Ratzinger, encontro em ambos a preocupação excessiva da perfeição e da verdade, da ordem e da beleza absolutas, e o profundo desejo de ter o Céu neste mundo. É esta a mentalidade e cultura germânicas: o rigor no trabalho e na disciplina, o absolutismo nos conceitos e filosofias. Ora, se as ciências experimentais e as suas provas ditas concludentes, entre elas algumas há (ou até, muitas) que se enganam, apesar do seu rigor científico, o que dizer das ciências humanas e, sobretudo, teológicas?

Joseph Ratzinger, ao idealizar a “sua igreja” como perfeita, santa, universal (porque não podia ser única), bela e absolutamente verdadeira, fechou-se nesta redoma, confinou-se, mas não tinha, quando governava, a experiência dos subúrbios, nem dos hospitais de campanha, não se apercebendo do mundo real. O seu mundo era muito confortável, acolhedor, limpo, higiénico, com cheiro a poder (mesmo que só fosse de carácter religioso). Bento XVI, por força do seu alto cargo começa, então, a aperceber-se da enorme calamidade que se aproximava, das gigantescas ondas do tsunami, dos ventos arrasadores do furacão e, por outro lado, da sua incapacidade (física e mental) e, “após muito cogitar sobre o assunto” – segundo o próprio confessou – embora contra a opinião de muitos pares, particularmente a do seu secretário particular, apresenta a renúncia como Papa, em 28 de Fevereiro de 2013. Nesse momento, com a abdicação – atitude raríssima na história da Igreja Católica – eclipsou-se também o carisma de dois organismos católicos, ambos adeptos fanáticos de Joseph Ratzinger e da sua doutrina e propósitos de perfeição: o Opus Dei e os Legionários de Cristo, do Padre Marcial Maciel (mexicano, este envolto em sórdidos escândalos). Será que Deus, mais uma vez, está a escrever direito por linhas tortas?