Ao ver, por estes dias, o Papa Francisco intencionalmente passeando numa das principais e mais movimentadas ruas de Roma, a comprida e comercial Via del Corso, agora tristemente vazia, que liga a Piazza del Popolo à zona mais importante e mais antiga da Roma Imperial (Foro Romano, Arco de Tito, Coliseu e Circo Máximo), dando um exemplo de solidariedade para com o povo de todo o mundo, lembrei-me de outro Papa (Clemente VI), de outra cidade (Avinhão, França), de outra peste (a Peste Negra) e de outras histórias.

Clemente VI (frade da Ordem de S. Bento) é, de acordo com o livro “2000 anos de Papas, de S. Pedro a Francisco” (edição da Casa das Letras) e nas minhas contas, o 195º Papa da Igreja Católica, com o pontificado desde maio de 1342 até dezembro de 1352, e o quarto no Papado de Avinhão, ou seja, um dos Papas que concordou com a saída de Roma e a fixação na já estabelecida sede, em Avinhão. O que aconteceu neste pontificado?

Agora vem o facto mais relevante. Aconteceu a chamada peste negra ou morte negra ou peste bubónica. Os adjetivos “negra e bubónica” têm, neste contexto, o mesmo significado, porque esta terrível doença ficou conhecida por “negra” pois todo o corpo ficava coberto por inchaços escuros, também chamados “bubões”. Apanhada a bactéria ou bacilo ou vírus, o avanço da doença era imparável e a morte era dolorosa e rápida (entre 3 e 5 dias). Nesses tempos, as ciências naturais praticamente não existiam e os estudos e experiências não se faziam. Um só livro existia, a Bíblia, e, mesmo esse, era numericamente escasso, pois as cópias eram manuscritas, para além do analfabetismo da população ser quase total. A ignorância era avassaladora, pelo que se desconheciam as causas da doença e da sua fácil transmissão.

Fosse como fosse, a Europa vivia num grande pavor, incluindo o Papa e seu séquito de Cardeais e servidores do palácio. O Papa Clemente VI, em Avinhão, pediu conselhos, que lhe foram dados: passar todo o tempo rodeado de lareiras e fogueiras ou piras. Após a fase crítica, o Papa deslocou-se para o campo, escassamente povoado. Clemente VI sobreviveu, o que foi tido como uma bênção de Deus, e sem a contribuição do popular Santo protetor em matéria de peste: S. Sebastião. Um tal Roque, de Montpellier, viveu nesses anos da peste e haveria de morrer por causa dela, acabando, depois, por ser “concorrente” de Sebastião, este muito mais antigo, do Século III.

Decorridos séculos após esta maldita peste, as ciências da natureza e da vida haveriam de descobrir as causas, que os historiadores apontaram: a peste negra veio da Ásia, fala-se que da longínqua China. Não conseguiu, naturalmente, transpor o enorme Oceano Pacífico (barcos para viagens distantes não existiam), mas, para desgraça de muitos milhões, seguiu uma rota terrestre para ocidente, e também marítima pelo Índico, em pequenos barcos de curtas ou médias distâncias, passando pelas terras de Ceilão, Taprobana, Índia, Pérsia, Arábia, Egipto, Anatólia e depois toda a costa do Mediterrâneo e daqui alastrando pelo interior do continente europeu, qual mancha de azeite sobre papel.

Só na Europa, os historiadores apontam o número de mortes em um terço ou mesmo metade da população. Entretanto, séculos decorridos, os cientistas descobriram que se tratava de um bacilo, bactéria ou qualquer outro ”bichinho” com o tamanho de 100 mil vezes menor do que um milímetro e que era transmitido aos humanos pela ferroada de uma só pulga, sendo que estas cavalgavam no dorso dos ratinhos e estes espalhavam-se pelos acanhados porões dos barcos ou barcaças, de porto em porto.

Felizmente que o coronavírus mostra-se menos agressivo e o avanço das ciências da natureza concorre para a resolução mais célere desta pandemia. É o que se espera.

(manuelribeirojor@gmail.com)