Se querem saber quem é o Papa Francisco, para a maioria dos cristãos católicos, nada mais claro que o comparar ao Presidente Marcelo em matéria de amabilidade, de popularidade, de simplicidade e de esperança. Contra o Marcelo estão os políticos ciumentos ou vaidosos, os intelectuais frustrados, os maldizentes por vício e muitos outros tacanhos. Contra o Papa estão os purpurados convencidos da sua eminência, os santos de pau carunchento, os teólogos carregados de dogmas e absolutismos e as autoproclamadas elites do conservadorismo, todos vindos das sacristias mofentas.

A grande diferença entre os dois é que um é escolhido pelo povo, em eleições livres e gerais (o Presidente Marcelo), e o Papa Francisco pode não ter um sucessor ao seu nível, porque a escolha não é feita pela generalidade dos cristãos católicos. Ora o Papa Francisco tem conhecimento e consciência do meio em que vive, ao admitir ser alvo de vergonhosas chantagens tais como a probabilidade de surgir um cisma de consequências terríveis caso leve avante as reformas preconizadas. A resposta do Papa Francisco foi esta: “não me preocupam as chantagens nem temo um eventual cisma, mas rezo todos os dias para que isso não aconteça”.

E que reformas são essas que este Papa pretende fazer? (Se as vozes das instituições e organismos católicos, em Portugal, são escandalosamente inexistentes, felizmente que ainda dispomos de gente corajosa, isenta e sabedora – Frei Bento Domingues e Padre Anselmo Borges, e talvez mais alguns – que mostram publicamente a cara nos meios de comunicação social e nos dão opiniões e notícias do que se passa na Cúria Romana). Juntemos, agora, o jornal digital “SeteMargens” e o pequeno rol fica completo.

Consta nesses órgãos de comunicação esta súmula dos projectos de reforma do Papa Francisco (de tipo organizacional, comportamental, pastoral e um ou outro teológico). Segue a lista: a reforma da Cúria Romana e o combate ao carreirismo eclesiástico; incentivar o debate sobre os ministério das mulheres na Igreja e sobre a possibilidade de ordenação de homens casados ou mesmo o fim do celibato obrigatório; a não procura de poder para a Igreja Católica mas, pelo contrário, que a Igreja se torne exemplo desinteressado para os mais pobres; dos passos gigantescos nos caminhos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso; a erradicação da pedofilia no seio das instituições eclesiásticas e seus responsáveis; a revisão do papel dos colégios e das universidades católicas; incentivar o procedimento do chamado caminho sinodal ou uma fórmula denominada “assembleia sinodal”, já em prática na Alemanha, com deliberações por voto pessoal, na qual participam bispos, leigos organizados (ZdK, sigla em alemão), padres, diáconos e agentes pastorais.

Na área da socio-economia: denúncia da “economia que mata” e da religião que manda matar; alterações nas práticas teológicas para que recusem o papel de ideologia da dominação económica, política e religiosa; incitar a Igreja a deslocar-se para as periferias; recusar que haja cidadãos de primeira e de segunda; acolhimento das vítimas da guerra e dos que fogem da miséria (recolha de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO de 08.Out.2019).

De louvar, com o maior entusiasmo, é o exemplo dos católicos alemães ao promoverem as chamadas “assembleias sinodais” com participação geral, embora organizada, de bispos, leigos do ZdK, padres, acólitos e agentes pastorais, com direito a voto e libérrimos debates. “Os bispos alemães deram-se conta de que há uma crise profunda na Igreja Católica, mas Roma não entendeu a urgência” – Matthias Katsch (do conselho de vítimas de abusos). Como habitualmente, o Portugal Católico emudeceu.