O Garção, de Valença do Minho, era o colega de Belas Artes com quem eu me dava melhor.

A meio da tarde íamos, os dois, frequentemente, a uma tasquinha do Jardim de São Lázaro, mesmo pegado ao “atelier” do pintor António Cruz que, mais tarde, foi considerado o maior aguarelista português de todos os tempos – a pintura dele era muito semelhante à do genial Turner, de Inglaterra.

Tinha eu, então, cerca de 18 anos e o Garção 20. Mandávamos vir uma “sande” de fígado de cebolada frito, dentro de um pão – (a que dávamos o nome de papo seco) – acompanhada de uma caneca, de esmalte, de vinho verde tinto, que nos deliciava. Ficávamos consolados!

Uma vez ele disse-me:
– Ó Alcino!, um dia que tenhas uns patacos, vai passar uns dias a Valença do Minho, à minha terra, e vais ver que vais gostar. Entretanto, eu falo à D. Júlia, da Pensão, e ela far-te-á um preço em conta!
E assim foi. Uma vez, após ter vendido um pequeno trabalho, a óleo, ao Senhor Manuel Pinto de Azevedo, director do extinto jornal “O Primeiro de Janeiro”, resolvi comprar um bilhete, na Estação de S. Bento, do Porto, e fui, de comboio, directo a Valença!

O Garção era uma jóia de rapaz. Apresentou-me a seu pai, o capitão Garção, que tinha sido posto fora do exército, devido a ficar à frente de uma pequena revolta militar contra o regime de Salazar… No entanto, ele, e toda a sua família eram muito estimados.

Fomos, ambos, até à casa dos seus avós, a Melgaço. Ceamos e dormimos lá e, pela manhãzinha, viemos embora, cantando alto, bem alto, pelo meio dos pinheiros, alguns trechos da Ópera de Pucinie, de Verdi. Éramos jovens. Cheios de vida e de esperança no futuro!…

Quando regressei à “Cidade Invicta” estava longe de supor que iria ter conhecimento de uma tragédia que me marcou para sempre.

O Garção, que um dia de manhã, estando entretido na relva, com duas amigas suas, estudantis, foi apanhado, de frente, e arrastado por um automóvel, que não soube segurar, na curva da estrada que vinha directo da vila.

Foi colhido, de frente, pelo motor, que lhe rebentou os pulmões… – porém, ele, mesmo assim, rápido, abriu os braços, e afastou as jovens raparigas que lhe faziam companhia e lhes salvou a vida…

Com vinte anos. Na flor da idade!… e que ainda poderia vir a ser um grande artista – morreu! Morreu “estupidamente!”…

O “seguro” parece que queria pagar tudo ao pai; às famílias!… mas quem paga uma coisa destas?!…

O pai não quis saber de mais nada. Não quis nada de ninguém…
Fui avisado, por telefone e, no dia do enterro, no cemitério de Valença do Minho, fui lá ler umas palavras, comovidas e sinceras, pelo desaparecimento, tão brusco, daquele bom amigo, cheio de esperança no futuro e na vida!

Recordo-me, igualmente, que um dia, quando ambos fizemos parte de uma Missão Estética, em Vila Viçosa, e estávamos no mesmo quarto, a pintar, eu disse-lhe, a troçar do seu trabalho: – Ó Garção! As nuvens da tua paisagem parecem feitas de algodão em rama!…

Ele ficou furioso. Pousou a paleta e os pincéis e caminhou para mim para me dar um estalo. Eu comecei a rir e dei-lhe um abraço, dizendo:
– Ó Garção, não leves a mal, tu, um dia, vais ser um grande artista!
Ele sorriu, e recomeçamos, de novo, a trabalhar, sem ressentimentos.
O que é a vida!

O Garção era um rapaz muito educado. Tinha o 7º ano do Liceu. Filho de boa gente e cheio de esperança no futuro.

Que Deus o guarde!
Já lá vão sessenta e tantos anos. Nunca me esqueci dele.
Dos poucos dias que pintamos, juntos, em Valença, recordo-me, que fiz, a seu lado, uma paisagem, que engloba a ponte do caminho-de-ferro que liga Valença a Tui.

Esse trabalho foi adquirido pelo arquitecto Mário Bonito que, então, na cidade do Porto, tinha grande prestígio profissional.
O que seria feito dessa paisagem?…

O Mário Bonito também já morreu, e, eu, por cá ando, sempre a recordar tempos passados… até um dia, não é verdade!?

Foto: www.visitevalenca.com