O mundo de uma criança é todo ele cheio de fascínio, de novidades e deslumbramento.

A vontade de explorar, de embarcar numa aventura, dota a criança de uma percetibilidade natural.

Aquilo que, enquanto criança, distinguíamos claramente, foi ficando cada vez mais baço; tornámo-nos insensíveis aos novos estímulos, às novas ideias.

As maçãs que compramos parecem nascer de um supermercado, e não de uma árvore.

O primeiro passo para acordar os sentidos consiste em redescobrir em nós mesmos aquela criança curiosa; e, para consegui-lo, precisamos de deixar de prever com antecedência (ainda antes que as coisas ocorram) o que vamos ver e sentir. Essa antecipação bloqueia a perceção.

Outro obstáculo à perceção é a obsessão de muitos de nós em querer, á viva força, rotular as coisas.

As pressões das “horas” e dos “destinos” são outros dos entraves à perceção.

Quantos excursionistas só tem como preocupação a de correrem para o acampamento para lá chegarem antes do anoitecer; nunca lhes ocorre   tirar uns minutos do seu tempo para deambular um pouco e apreciar o que os rodeia.

A maior parte de nós encerramos visualmente em redomas tudo o que nos cerca.

O resultado é uma visão automática que estrangula a perceção e que nos limita ao ponto de, apenas vermos uma fração do que há para ver.

Um dia fui dar um passeio a pé. Vi que as nuvens, cada vez mais revoltas, ameaçavam tempestade. Uma chuva grossa começou a cair. Ali, com as ondas a rebentar à minha volta, tive uma perceção tão completa da Natureza que toda eu vibrava. Cada onda que se desfazia contra as rochas, provocava em mim um frémito que me percorria o corpo até aos ossos. Saboreando a espuma salgada e o corpo suportando a força da onda que investia.

Da próxima vez que der um passeio a pé, seja onde for, abro-me e deixo-me invadir. Absorvo tudo o que vir, ouvir e sentir. Vaguearei nesse estado de espírito e, então sim, a minha vida terá uma nova dimensão.

 

FCF- Filomena Costa Freitas