Os escassos leitores que ainda vão tendo a pachorra de passar os olhos pelo o que aqui vou escrevinhando certamente se lembrarão que, há bem pouco tempo atrás, referi que da minha estada em Viana do Castelo tinha um “esqueleto no armário”, bem certos estavam os céticos pois, bem recentemente descobri que, afinal, havia mais um. 

Sucedia que, por razões de serviço, tinha por vezes de me deslocar a Lisboa e, na impossibilidade de o fazer usando o comboio, recorria aos serviços da viatura da Capitania, um já “entradote”  VW carocha que, mesmo assim, lá se ia desenrascando “tant bien que mal” (verdade seja dito que eram mais as vezes mal do que as bien).

A viagem de carro entre Lisboa e Viana do Castelo era, ao tempo, uma aventura que envolvia algum risco e de duração incerta, havia até quem dissesse que era mais fácil medir a sua duração recorrendo à folha do calendário do que do relógio.

Numa dessas viagens, já com várias horas de condução, nos arredores de Águeda, ao tentar aproveitar uma longa e larga subida para ultrapassar algumas camions, passei sobre um buraco (verifiquei depois que era bem difícil que tal não sucedesse tal era sua profusão no local )  de que resultou o rebentamento de um dos pneus, obrigando – me a estacionar na berma da estrada, por casualidade,  a escassos 20/30 metros de uma viatura da GNR que por ali se encontrava estacionada 

A tentativa de mudar o pneu revelou – se impossível pois o “macaco” do VW estava totalmente calcinado, o agente da GNR, que entretanto se fora aproximando, talvez por se aperceber da situação questionou-me nos seguintes termos: “Oh escola (1) estás com algum problema?”

Para evitar qualquer tipo de constrangimento não me identifiquei limitando-me a informar que prestava serviço na Capitania do Porto de Viana, explicando-lhe o sucedido, tendo-se ele logo prontificado para me ajudar, indo buscar o “ macaco “ da sua viatura e colaborando na substituição do pneu. No decurso dessa operação, perguntou-me se, por causa do sucedido, iria ter problemas com o Capitão do Porto ao que, considerando que não viria grande mal ao mundo, e não tendo já avós que são, por vezes, os únicos  que elogiam os netos, resolvi auto elogiar -me dizendo – lhe que não pois, quanto a mim,  o comandante era um “gajo” porreiro.

Após agradecer-lhe a preciosa ajuda disse-lhe que, se alguma vez passasse por Viana, que me procurasse na Capitania para almoçarmos juntos 

Um dos primeiros atos que realizei, após terminada a viagem, foi o de oficiar ao comando do posto da GNR, a que o agente pertencia, elogiando o seu desempenho e agradecendo a colaboração por ele prestada, sem, no entanto,  referir ter sido eu o militar ajudado.

Alguns dias passados apresentou–se, no meu gabinete, o referido agente da GNR, que havia sido mandado pelo seu comando, para me apresentar desculpas pela forma como me tinha tratado (tenho para mim que alguém em Viana do Castelo, a quem terei contado, de forma elogiosa, este episódio, terá feito saber ter sido eu o condutor).

Estou quase certo que, da longa conversa que entretanto tivemos, lhe consegui explicar o porquê da minha atitude e libertá-lo da preocupação que tinha ( ou que lhe haviam feito ter ) e reiterar os meus agradecimentos, pedindo-lhe desculpa pelas eventuais consequências que a minha atitude lhe haviam acarretado. Embora tivesse insistido, não consegui que aceitasse o convite para almoçar comigo, limitando-se unicamente a aceitar um café numa das esplanadas da avenida.  

É pouco possível que o tal agente da GNR venha a ler o que aqui escrevo mas, se porventura tal acontecer, aqui lhe reitero não só o meu agradecimento pela preciosa ajuda, como as desculpas pelos incómodos que lhe terei provocado.

(1) O termo escola é uma expressão da gíria marinheira usado inicialmente no relacionamento entre militares da Marinha pertencentes à mesma incorporação e que posteriormente passou a ser utilizado  independentemente da incorporação a que pertenciam. Tal expressão fez – me acreditar que, por estar com a minha gente, a situação estava em vias de resolução.

Carlos Gomes