Foi com uma profunda mágoa que recebi a notícia da morte de Jorge Sampaio (1939-2021), antigo Presidente da República. A minha geração, apesar de muito mais nova que a sua, (sou catorze anos mais novo do que ele, pois nasci em 1953), muito lhe deve, quer pelo seu exemplo de civismo, particularmente na luta estudantil durante a ditadura salazarista, quer ainda pela sua genealogia e admiração por Sir Winston Churchill. Quando há uns anos me desloquei aos Açores, mais precisamente a Ponta Delgada, pessoas muito bem informadas na história dos Judeus em Portugal me disseram: “olha visita a sinagoga de Ponta Delgada”. Tendo-o feito, foi com grande desgosto que, para além da dificuldade em a visitar, constatei que estava em avançado estado de degradação. Quando regressei, descrevi isto a quem de direito, acabando a saber que, felizmente, já está restaurada. Também lá soube que a mãe de Jorge Sampaio, enquanto aí viveu, frequentava essa sinagoga. A sua mãe chamava-se Fernanda Bensaúde Branco de Sampaio e, segundo o jornal “Diário de Notícias” do dia 11/9/2021, página 15 do caderno especial dedicado à sua vida e morte, “foi também por via materna que Sampaio herdou a costela judaica. A mãe de Fernanda, Sarah Bensaúde, descendia de uma das mais antigas famílias de origem sefardita em Portugal. Natural de Marrocos, Abrahão Assiboni (Hassiboni ou Há-Sib’Oni) aportuguesou o apelido para Bensaúde ao fixar-se em 1819, em Ponta Delgada, nos Açores, onde viria a morrer, em 1868”.

O movimento estudantil, sobretudo o universitário, teve uma grande importância na contestação à ditadura do Estado Novo, sendo Jorge Sampaio um dos maiores entusiastas nesse movimento, o que o levou a várias perseguições pela polícia política da altura. Animado pelos ideais democráticos destes movimentos e pelas ideias do “reviralho”, como então se dizia, vivendo eu na altura na cidade de Braga, andei, conjuntamente com um colega, que infelizmente já faleceu, a distribuir por toda a cidade de Braga, até às 5 horas da manhã, panfletos pela democracia e contra a ditadura, já na altura do governo de Marcelo Caetano. Resultado: uma noite preso na PIDE/DGS, a levar umas boas estaladas de um agente dessa famigerada polícia. Só me soltaram porque tinha apenas 19 anos, sendo naquela altura de menor de idade. Aprendi muito com isso e também com outras personalidades da oposição democrática, como Salgado Zenha e Jorge Sampaio, entre muitas outras.

Como não podia deixar de ser, aqui presto, de novo, a minha homenagem, ao Grande Homem que foi este nosso ex-Presidente. Um muito obrigado pelo teu exemplo, Jorge Sampaio!