Fez precisamente no ano de 2002, cem anos que Trindade Coelho publicou o seu imortal livro In Illo Tempore, livro de recordações dos seus tempos de estudante de Direito da Universidade de Coimbra. Apesar de ser de Arcos de Valdevez (e eu orgulho-me muito por ser arcuense), sou, muito possivelmente, modéstia à parte, das pessoas que mais têm estudado Trindade Coelho. Na verdade, tenho dedicado muitas horas ao estudo da obra e da vida de Trindade Coelho, tendo, inclusivamente publicado vários trabalhos sobre este insigne escritor. Trindade Coelho fascina-me como escritor e como HOMEM.

Trindade Coelho nasceu no dia 18 de Junho de 1861, em Mogadouro. Concluídos os estudos «preparatórios», parte para Coimbra, onde se matricula na faculdade de Direito, no ano de 1880. Em Coimbra, para além de estudar, dedica-se à escrita. Colabora com inúmeros jornais de Coimbra, da Província, de Lisboa e do Porto. Escreve contos, crónicas e, praticamente realiza todo o género literário. Trindade Coelho é um homem sociável, convive muito com os seus colegas, frequenta as velhas tascas de Coimbra, e participa na velha boémia culta e alegre da vida coimbrã da época. Desses seus tempos de Coimbra, irá escrever mais tarde, mais precisamente em 1902, umas memórias, a que chamou In Illo Tempore. Esse livro, tornando-se famoso, rapidamente se esgotou toda a edição em pouco tempo. É um livro “Em que se entrelaçam a sátira e a saudade, a ternura e a alegria, a ironia e a emoção (…). Em In Illo Tempore, Trindade Coelho retrata com alegre bonomia e alguma ingenuidade o ambiente estudantil coimbrão (…) é obra de literatura leve que nos faz sorrir com as situações irreverentes e por vezes anedóticas da vida universitária da época, dando o devido realce às tão populares «repúblicas» e às tradicionais praxes académicas” (1) Nas suas páginas, passa-nos, como num filme, a velha Coimbra das praxes, da Festa das Latas, do Orfeão Académico, da «sebenta», dos velhos e arcaicos «lentes», das tricanas lindas e figuras típicas, das patuscadas, da boémia e da piada fina (coisa rara, hoje em dia), enfim das recordações do tempo da feliz e despreocupada mocidade de Trindade Coelho, em que as desilusões e problemas da vida, ainda não o haviam tocado e afligido.

Ora bem…porque sou de Arcos de Valdevez (tenho mesmo muito orgulho de ser dos Arcos Oh!…), ao ler o In Illo Tempore, reparei que Trindade Coelho fala em dois «rapazes» do seu tempo, ambos também de Direito, que são arcuenses. São estas duas personagens de que lhes quero falar, comemorando assim, nós arcuenses, também, à nossa maneira, este Centenário de In Illo Tempore. Vamos ao primeiro personagem, o Zé do Beco. Escreveu assim Trindade Coelho, em nota de rodapé: “Este Beco das Flores faz-me lembrar agora uma alcunha que o José Maria Rodrigues, hoje lente de Teologia e reitor do liceu de Lisboa, pôs a um rapaz do Minho chamado Sousa, muito cascudo, que tem agora açougue nos Arcos, porque os dos Arcos chamam «açougue» ao escritório dos advogados, e é agora advogado nos Arcos.

Morava o minhoto no Beco das Flores, ainda era caloiro; e depois de jantar, todas as tardes, costumava aparecer pela república do José Maria Rodrigues, que era então na Rua da Matemática; e o José Maria, que por dizer alguma coisa lhe perguntava sempre: «Então? Que há de novo lá pelo Beco?», entrou a notar que a pergunta afinava o caloiro, porque o caloiro envergonhava-se de morar num beco, e queria por força que dissessem «Rua»! Não foi preciso mais nada; o José Maria nunca mais lhe tornou a chamar senão Zé do Beco, e atrás dele os outros todos – e a alcunha pegou!

Ainda me lembro que, uma vez, foi parar à república do José Maria, por engano, um queijo muito bom que era para o Dr. Eduardo Nunes, ao tempo lente de Teologia e agora arcebispo de Évora; e que o queijo foi condenado a ser comido por se ter ido meter numa casa alheia, foi saboreado também pelo Zé do Beco – mas este debaixo de um chapéu-de-chuva!

O José Maria tivera artes de convencer o caloiro de que o queijo, para saber bem (principalmente um queijo daqueles!), era assim que se devia comer – como se fosse na rua e chovesse a potes!” (2)
A outra figura de arcuense era o celebérrimo Saraiva das Forças. O Saraiva das Forças era o «rapaz» mais valente de Coimbra. Era valente, mas de bom coração, e por isso, querido de todos. O Saraiva das Forças era o protector dos caloiros e de quem precisasse de ajuda. A este nosso conterrâneo, Trindade Coelho dedica todo um capítulo do In Illo Tempore. Dizia o Trindade Coelho que o Saraiva das Forças parecia o «Hércules da mitologia». Ainda hoje, em Arcos de Valdevez, existem familiares chegados deste Saraiva das Forças, a conhecida e conceituada família dos Saraiva de Arcos de Valdevez. Do In Illo Tempore, de Trindade Coelho, páginas 31 e 32, da já citada edição, não resisto a transcrever estas linhas: “Ora, com uma pertinácia destas, o Saraiva está de ver que sempre se formou, e tomava até capelo, se quisesse! Mas não quis. Formado, foi para a terra advogar. E uma vez que eu viajava no Minho, vi à beira de uma estrada, sobre milharais espigados, um poste com uma tabuleta, e na tabuleta este letreiro, com uma mãozinha a apontar para o norte: “AQUI, ADVOGA-SE”.

Explicou-me o cocheiro que além atrás duns cômoros ficava o escritório do Sr. Dr. Saraiva – advogado!
– E ele ganha as questões? – Perguntei eu.
– Todas! As partes contrárias tomam-lhe medo!
Aqui têm os meus conterrâneos arcuenses, duas “historietas” interessantes que Trindade Coelho escreveu sobre personagens da nossa terra. Agora, espero que peguem no In Illo Tempore de Trindade Coelho e o leiam, principalmente o capítulo sobre o Saraiva das Forças. É que rir faz sempre bem! E as piadas deste livro são piadas finas, dando-nos Trindade Coelho mais uma lição, que é a de: para se ter piada não é preciso ser-se porco!

Referências:
(1) – In Illo Tempore, Editora Europa-América, livros de bolso.
(2) — In Illo Tempore, capítulo “Resurrexit Non Est Hic!”, pg. 26, Edição Europa-América, livros de bolso.