Há algo místico, e que se tende a prolongar no tempo, no que às aldeias se refere – a atenção.

Poderíamos aqui definir atenção não só como o ato de prestar atenção a, mas também como o ato de haver consciência, seja ela sobre si próprio ou sobre o outro, ou determinada situação.

É inegável que os tempos mudaram; e com a industrialização veio a rapidez, a eficiência e a produção massiva. Mas não só. Veio também a dessensibilização, o entorpecimento e a indiferença. 

A criação das grandes metrópoles foi, para nós, um ganho produtivo. Afinal, quem consegue ficar isento ao encanto de cidades como Nova Iorque, Londres, Paris ou Lisboa? 

Todavia, há quem defenda que se tenha perdido o “encanto social”. Tornou-se quase que indefensável o acolhimento de uma postura quebrada, de olhos fixos no chão ou num aparelho, de uma visão turva e de um arrefecimento, se não uma total extinção emocional. 

Este “transe urbano” consome-nos em silêncio. Devagar, devagarinho, vai fazendo jus ao seu objetivo, colhendo, aqui e ali, mais uma vítima de autismo social. É como um vírus que ataca o sistema imunitário das emoções e vai lançando o seu veneno muito subtilmente.

Era importante que soubéssemos que somos os mesmos que éramos há uns bons anos atrás, isto é, continuamos a gostar e a precisar das mesmas coisas: amor e atenção. Acontece que nos vieram tentar convencer que, afinal, precisamos e gostamos mais de coisas como sucesso, riquezas e materiais. Que o tempo “foge”, que duramos uma eternidade e, assim, é melhor estarmos uns contra os outros, ao invés de uns para os outros. 

O grande problema desta era tecnológica é que nos faz crer que vivemos melhor numa “realidade virtual” do que numa “realidade presencial”, o que causará, no futuro, uma maior desconexão humana. Consequências disso já são referidas pelas próprias famílias e na dificuldade que sentem na condução do seu dia-a-dia, na manutenção de um clima interno agradável e no desafio cada vez maior de alcançar a essência dos seus filhos.

Estamos a perder o dom da empatia, um dom tão precioso que fortuna ou sacrifício algum poderá comprar. Se calhar, é por isso que gostamos tanto de regressar às origens, ao cheiro de uma lareira que arde numa casinha na aldeia, ou de uma macieira que revela os seus tons avermelhados, em contraste com o verde das montanhas que as abraçam.

Ainda assim, permaneço positiva e com a fé de que, dentro de todos e cada um de nós, há um lado lunar e um lado romântico que acabarão por se encontrar em perfeita simbiose; e que talvez possamos, novamente, olhar nos olhos uns dos outros, com a certeza que somos exatamente iguais e que caminhámos, exatamente, para o mesmo destino final. Daí que talvez fosse mais interessante cuidar, do que propriamente acumular. Pois, de que importa cuidar, quando partirmos?