Na crónica anterior, com o título “E, primeiro que tudo, Deus criou a Mulher”, pretendo fazer o exaltamento da Mulher, de todas as mulheres. O mote foi dado pelos acontecimentos que ocorreram no Afeganistão, um país mártir, um estado caótico e chefiado por gente cruel: os talibans ou estudantes fanáticos da teologia islâmica, ou seja, os seminaristas lá dessa terra, que tratam as mulheres de maneira inconcebível.

Saiba-se que nenhuma das três religiões, que a si próprias se classificam de monoteístas (pois dizem acreditar na existência de um só Deus e não de vários – politeístas), e fundadas, cronologicamente, por esta ordem (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), todas elas, no mínimo, segregaram as mulheres (fêmeas), colocando-as numa posição muito abaixo dos homens (machos), ao contrário do que narra o Livro do Génesis, logo nas primeiras páginas. Perguntarão os leitores: mas que têm a ver as religiões (ligação a Deus), ou essas religiões em concreto, com a biologia, a fisiologia e outras ciências modernas, que se dedicam ao estudo físico, mental e sexual do corpo humano e à sua maneira de viver? Porque, naqueles tempos, as religiões eram as únicas instituições humanas que, perante o Universo e a pequenez humana, tentavam perceber o que se passava naquela imensidão do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. O mundo que conheciam (e era pouquíssimo, então) encontrava-se permanentemente em lutas fratricidas, guerras devastadoras e crueldades inimagináveis. Não existia o conceito de “direitos humanos” e, claro, o homem (macho), abusivamente, apoderou-se da autoridade sobre os seres vivos, designadamente sobre as mulheres. E ditou leis que subjugavam todos os seres aos seus apetites e interesses.  Apesar de muitos progressos nessas áreas, até aos nossos tempos, o mundo tem vivido em permanente desassossego, crueldade, injustiça, fanatismo e conservadorismo. Percorram a internet (sugerindo o You Tube, para começo) e escutem ou leiam as preleções, homílias, sermões, palestras e crónicas (com temas da atualidade), em várias línguas a começar no nosso português, língua na qual os brasileiros levam a palma no tempo de antena. Em todo o lado há grupos incrivelmente conservadores e, em muitos casos, grupos extremistas e culturalmente selvagens. Ainda!

Há duas palavras usadas na nossa cultura ocidental judaico-cristã, cujo significado é normalmente distorcido, e o contexto histórico é, talvez propositadamente, escondido. Essas palavras são: adultério e repúdio. Ao ouvirmos esses termos, que pensamos de imediato? Em homem e mulher, em traição sexual e em pecado. Foi assim que as doutrinas religiosas (muito especialmente a católica tradicionalista) trataram estes assuntos. Mas estes conceitos vêm de tempos imemoriais (do judaísmo) e que, nesses tempos, o seu significado era um tanto diferente dos tempos de hoje, embora sempre mostrando a marginalização da mulher. Na verdade, a palavra “adultério” (ou a sua palavra equivalente em hebraico e aramaico) referia-se, simplesmente, a um crime contra o direito de propriedade. Leram bem, mas eu repito: um crime contra o direito de propriedade. E porquê? Porque a mulher, todas as mulheres, era propriedade ou do seu Pai (enquanto solteira) ou do seu Marido ou Companheiro (quando casada). Falando terra a terra: a Mulher era (e nalgumas culturas continua a ser) um bem, uma coisa, com um valor e os direitos iguais a uma vaca ou ovelha ou qualquer outra coisa, isto é: zero valores. O crime de adultério (o tal contra o direito de propriedade, o roubo) era tão grave que a pena ou castigo para a mulher adúltera consistia, nada mais nada menos, na morte, aliás uma morte crudelíssima, a partir do enterramento da penitenciada em campo aberto, e só com a cabeça de fora, à qual a populaça atirava pedras. Isso ainda é usado em certos países de religião islâmica. O curioso é que o ladrão de mulheres, sendo o autor do roubo, era teoricamente o mais culpado, e provavelmente seria condenado, mas a literatura histórica não se refere aos homens adúlteros.                                                                                                                     A outra palavra, muito usada também e sobretudo na linguagem bíblica, tem o nome de repúdio (rejeição, rompimento, negação, divórcio). Ainda no tempo de Jesus Cristo, esta prática absurda da rejeição da mulher era comum.  Pior: este comportamento por parte dos homens era acobertado pelo direito judaico, pela Lei de Moisés.

Uma mulher, entretanto envelhecida, já em idade infértil, com o encargo brutal de  cuidar dos filhos e sem meios de subsistência, era abandonada, repudiada, bastando ao insensível marido a apresentação de uma “carta de repúdio”. Isto era uma selvajaria individual e social. E foi contra isso que, segundo a leitura muito atenta dos quatro evangelhos, Jesus Cristo falou. A realidade dos nossos dias é que o direito de divórcio, no mundo ocidental, trata os dois cônjuges de igual maneira em matéria de iniciativa do ato, divisão de bens, sustento e guarda dos filhos e acompanhamento dos mesmos. A atual instituição do divórcio é muito mais humana. Mas não posso deixar de dizer que, por convicção profunda, o compromisso com a fundação e, sobretudo, manutenção da família é a situação ideal. (Estas crónicas vão continuar com referências a outros aspetos sobre religiões, famílias e mulheres. Comecem por ler a crónica do Frei Bento Domingues no Público do dia 3 de Outubro passado, que veio mesmo a propósito)