É um bom sinal que o indivíduo possua sentimentos de auto estima que lhe dêem forças para enfrentar e vencer as contrariedades que a vida apresenta, mas penso que em circunstância alguma deva tal sentimento ser extremado e transformado em narcisismo, que contem em si mesmo uma imagem doentia e completamente distorcida da realidade.

Um narcisista será alguém que se adora a si mesmo, que eleva os seus méritos ao cúmulo da perfeição e que até se desvanece perante o seu potencial, a que associa, indiscutivelmente, uma suposta beleza que só ele percepciona e o satisfaz, e que assume papel preponderante nas qualidades que julga ostentar. Não deixa de ser semelhante à auto estima no seu máximo expoente, tão em voga na cultura e nos hábitos de determinados ambientes sociais, mas que acaba, geralmente, por sair ridicularizada e mesmo anatemizada em comentários de grupos, a menos que sejam da mesma estirpe. E estando os protagonistas tão cegos com os seus egos, acabam por não percepcionar a falsa imagem que os alimenta.

Quando estes dois estados de alma se misturam numa simbiose gera-se um fenómeno a que chamaria diarreia narcisística, porque o indivíduo está, na verdade, mentalmente afectado, vivendo apenas para a sua imagem, que não deixa de ser ridícula perante os outros, embora muitas vezes não haja coragem para a crítica social e seja mais adequado seguir o politicamente correcto do ver, ouvir, calar ou comentar em voz baixa.

Prefiro não ficar calado, porque para além de não apreciar uma sociedade hipócrita, detesto quem a si próprio se sobreeleva, julgando-se um modelo único de perfeição. E por isso dirijo esta crítica a vários indivíduos adjectivados de “figuras” ou “personalidades” da nossa sociedade que se consideram os melhores em relação a todos quantos os rodeiam. E não faltam bajuladores num certo estilo de comunicação social que mais não fazem do que activar as glândulas que produzam esta ilusão.

Vejamos alguns exemplos. Um desportista de topo, como outros do mesmo gabarito, declarou, pública e convictamente, que não possui defeitos – assim mesmo – como se haja alguém que seja totalmente perfeito! Não será isto uma arrogância desmedida? Uma deselegante dama do audiovisual, que tem dado nas vistas pelas suas gargalhadas histéricas a que muita gente acha graça e que até tem conseguido que alguns políticos “se ajoelhem” diante dela para se mostrarem ao público, subiu-lhe tanto a auto estima que já se considera uma referência nacional e admite candidatar-se à presidência da República! Não será isto um narcisismo? Um mister, porque ganhou dois títulos fora do país, já se atreve a considerar-se um dos melhores do mundo. O caso de um conhecido parasita que se movimenta entre Lisboa e Nova York, e vice-versa, vive também num narcisismo extremo e absolutamente patético, que até causa náuseas. Outros casos existem, mas fiquemos por aqui!
Os exemplos apontados reflectem personalidades desorientadas. Haverá alguém que não tenha defeitos, por melhor que seja? Vamos ter de aturar peixeirada nas candidaturas à presidência da República, o órgão máximo da soberania do Estado? Teremos de ouvir constantemente auto elogios de quem nunca foi capaz de ganhar títulos internacionais em clubes do nosso país, e só porque ganhou dois lá fora, foi até condecorado? Teremos de suportar parasitas que nada produzem para a sociedade, a não ser narcisarem-se, alimentados por uma certa comunicação social decadente?

Tenho para mim que a humildade é o melhor sentimento que podemos ostentar, porque nunca fica mal em qualquer ambiente. Há que lembrar a conquista, por treinadores de futebol portugueses, de duas champions league, duas taças intercontinentais e outros títulos internacionais relevantes, com grande mérito, que nunca se auto elogiaram nem reclamaram qualquer condecoração, não obstante terem levado o nome do Futebol Clube do Porto e de Portugal pelo mundo inteiro. Tivemos, e temos, desportistas extraordinários medalhados com ouro em competições internacionais, como foram Carlos Lopes e Rosa Mota, no passado, e outros actuais, que nunca disseram que eram os melhores nem que não tinham defeitos. Temos alguns profissionais da comunicação social e do audiovisual com grande categoria, mas que não fazem alarde às suas capacidades e qualidades. Temos homens e mulheres com relevante projecção cultural, mundialmente reconhecida, que mantêm uma vivência fora dos holofotes e são simplesmente extraordinários e úteis à humanidade, mas que não são alvos preferenciais da comunicação social, porque, sendo intelectualmente ricos, sabem ser competentes e humildes. Todos possuem auto estima, naturalmente, mas não se deixaram nem deixam cegar pelo narcisismo.

A auto estima não é exibir capacidade financeira, auto elogiar-se, viver de futilidades e parasitar socialmente numa onda ilusória de importância que não se possui. Auto estima é reconhecer a capacidade de lutar cada dia com afinco e humildade na prossecução dos ideais, e sentir o sabor e a alegria da vitória sem cair no terreno narcisístico.