Uma deputada morreu. Ao querer entrar no céu, um anjo disse-lhe:

– Oh! – fez pausa – deputada, quanta honra a minha de a encontrar por estas paragens. Não estamos habituados a receber políticos.

Então ela reagiu:

– Fui uma mulher do povo e para o povo. Lamento ter falecido na flor da idade, porque as pessoas do meu país, certamente que iriam continuar a reconhecer todo o trabalho por mim a desenvolver no futuro, legislatura após legislatura…

O angélico sorriu. Num gesto de muita cortesia, cortando-lhe a palavra, elogiou-a, afirmando:

– Apercebi-me que mostrou dotes na entrevista que desenvolveu no écran televisivo das multidões. Considerou que tudo estava mal. Acabar com os salários de fome. O ensino e a saúde, gratuitos, como manda a Constituição. A banca ao serviço do povo. Pôr termo ao desemprego. Aumentar, todos os anos, os salários, face à inflação, diminuindo os impostos, além de outras necessidades colectivas prometidas no saco dos comícios eleitorais.

A personagem angélica fez pausa, um tanto longa. Sentaram-se, os dois, numa grande poltrona celestial.. De seguida, com voz cordata, interrogou-a:

– Onde iria buscar o dinheiro, o euro, para garantir todo o conjunto de promessas que apontou na terra, em campanha eleitoral, caso formasse governo?

Depois de esperar uma resposta, que não obteve, prosseguiu:

– No globo terráqueo, na luta política, uns acusam outros de não quererem abandonar o pote, porque eles, os acusadores, são os que pretendem agora entrar no pote.

Após um sorriso divinal, continuou: – Reconheço que possui uma voz doce, meiguinha, que não grita. Fala, mas não berra, antes chilreia. Presença simpática, que usa uma leve maquilhagem, que não encobre, de maneira alguma, a arquitectura da verdade, porque na sua idade ainda tem pouco para esconder. Cabelos compridos, bem tratados, que deslizam perante a sua maneira de trajar.

Fez uma leve paragem para lhe perguntar se estava a ser incómodo, ao que ela respondeu negativamente, e prosseguiu:

– Quando andei pela Terra, antes de me tornar um mensageiro incorpóreo para estar entre Deus e as pessoas, não apareciam moças vestidas à sua extravagante maneira. Torna-se interessante, sugestivo, agradável à vista e com uma sadia pitada de provocação como se apresenta em público.

O anjo, face ao contexto da conversa, passou a idealizar o modo como ela usa a saia comprida, até aos tornozelos, cingida ao corpo e com uma racha lateral profunda a mostrar umas meias finas, sedosas, transparentes, iluminando as pernas, que assentam, os pés, nuns sapatos de tacão baixo. Além de ser sublime o olhar, tudo aguça a mente para a posição do botão cor de rosa, na área do fio dental. Parou de imaginar. Ruborizou, suplicando, de seguida, em surdina: – Perdoai-me, Jesus, se pequei!

Normalizado que foi o fracasso temperamental e aparentando ar de graça, voltou, normalmente, a dialogar, referindo que sentira uma nevralgia.

– Mesmo com esta avançada idade celestial, embora apresente uma figura jovem e com asas para voar, admiro a sua presença calma, aparentemente segura ao falar, que produz em mim alguma cogitação. Na minha vida terrena aproveitei as circunstâncias do destino. Envelheci – disse com saudade – O corpo já não reage aos prazeres da carne. – Sorridente, bateu com as asas. Passou-lhe as mãos pelos fios luzidios do cabelo preto como o azeviche, concluindo:

– Provavelmente, teríamos desenvolvido uma boa amizade…

A deputada cortou-lhe a palavra. Soltou uma gargalhada. A mostrar uns dentes brancos, bem tratados, questionou-o:

– Oh… anjo! Lamuriento e com todas essas falinhas mansas o que pretende, realmente, de mim? – Com um brilho especial nos olhos, de malícia, continuou com outra pergunta: – No céu também se faz sexo?

O anjo mirou-a. Aparentemente, em simultâneo, espanto e deleite, respondeu: – No céu nada é pecado se tivermos a graça de Deus. Mas… – fez pausa – sexo faz-se espiritualmente, recordando o passado. E já agora – a sorrir – diga-me, deputada, quando faleceu, cremaram-na, ou ficou enterrada?

Respondeu que descansa em sepultura rasa, num dos principais cemitérios da capital do seu país. O anjo comentou: – Felizes os bichos que vão comer o seu elegante corpo… – fez pausa – Vamos mudar de assunto. A alma é volátil, porque ao evaporar-se não permite proporcionar o contacto sexual, aqui no céu. No inferno é diferente. Vale tudo! – replicou, gesticulando – Regressemos, então, à inicial inquirição, visto ter de se decidir em qual dos dois lugares terá, eternamente, de permanecer, dado que para o seu estatuto foi afastado, desde logo, a passagem pelo purgatório. Afirmou, no entanto, no Parlamento, que caso viesse apoiar um governo, a fim de lhe dar maioria, que não obteve nas eleições, aceitava a pasta de ministra da fantasia de vestir.

Mostrando a deputada uma certa inquietação, talvez devido à chalaça, interrompeu a figura angélica, asseverando:

– Embora apresente ser novata, estou certa que dei apoio na concretização de variadas carências humanas, patrocinando projectos de índole social, onde aparece o divórcio, o casamento entre seres do mesmo sexo, podendo adoptar crianças, a homossexualidade na ligação com a vertente heterossexual e o lesbianismo, baseado na consideração da liberdade pessoal. Aliado, ainda, a que a eutanásia possa ser uma realidade, na sequência de outros projectos para benefício das populações em geral. – fazendo pausa – Sou muito jovem. Por tudo isto a minha carne não merece ser fustigada pelo fogo. – exclamou com vigor.

O anjo, comovido, aconselhou:

– Face à sua lamentação, vamos, então, abrir uma excepção. Vai ficar um dia no céu. Depois, desce ao inferno, onde permanecerá, também, um dia. A seguir decidirá para onde quer ir.

– Já sei para onde quero ir. Ficarei no céu! – afirmou.

Bem disposto, o anjo explicou: – Mas, face à sua posição, terá de experimentar os dois domínios para, a seguir, ser assinado um protocolo.

Por fim, a deputada aceitou as regras. Foi até ao elevador e desceu ao inferno. Lá, encontrou todos os amigos e amigas da sua área política, que faleceram antes dela. O diabo, todo aprumado, veio recebê-la com um copo de whisky e fez as apresentações. Ficou sentada junto a um moço bonitão. Desenvolveu-se uma festa danada, um convívio de arromba ao sabor de música “pimba”. No fim do dia, tudo terminado, o diabo telefonou ao anjo, que a veio buscar. Entrou no céu com olheiras profundas, ar de cansada e um cheiro diferente do habitual. Aqui, com o ar condicionado a funcionar em pleno, tudo tranquilo, música de fundo romântica, ao som de piano, a beber um sumo de ananás com hortelã, a deputada deitou-se num soberbo e aconchegante sofá a descansar. Afinal, no inferno, a farra tinha sido de arrasar. Passado algum tempo, o anjo perguntou-lhe:

– Agora a menina precisa de decidir. Fica cá ou volta ao inferno?

Constrangida, respondeu:

– Nunca pensei que diria isso. Mas o meu lugar é no inferno. Encontrei muitos camaradas e senti-me à vontade. De acordo com a religião cristã, embora seja agnóstica, chama-se ao diabo um anjo rebelde, auxiliar de satanás, que foi banido do céu como inimigo da vontade do poder divino. Representa o mal. Desvia as pessoas do caminho da bondade, do bem e do prazer celestial. Não me apercebi dessa crueldade, nem tão pouco de qualquer suplício ou gente atormentada pelos demónios, após a morte, devido a terem sido condenados pela sua vida pecaminosa. – sorrindo – Está resolvido! – bradou – O meu lugar será no inferno, porque não deparei, também, com qualquer chamamento para as trevas e nem ouvi ranger de dentes.

A deputada voltou de novo ao inferno. Quando chegou, estava um calor horrível. O diabo, batendo as palmas, veio recebê-la, com uns chifres enormes, retorcidos, implantados na cabeça, acentuando:

– Seja bem-vinda, deputada!

Assustada, perguntou-lhe: – Todo o espaço físico está mudado. Além disso, que é feito do pessoal conhecido, que se encontrava na festa?

A resposta surgiu, zombateira: – Ontem, estávamos num comício de campanha eleitoral para angariar aderentes. A partir de hoje, que já temos o seu voto, tudo retoma à normalidade.

Ficou triste, titubeante, aborrecida pelo engano, porque nunca tinha imaginado o contrário, serem os outros a enganá-la. Pensou melhor, via positiva, a tirar partido do infortúnio:

– Na vida real da política, também ludibriei muita gente, que acreditou, batendo as palmas e gritando, ao que efectivamente injectava nos ouvintes que, de peito forte, acreditavam.

Uma lágrima, que a sua mente não conseguiu decifrar, pois tanto podia ser de raiva, de compensação, ou de fraqueza para enfrentar o fracasso, correu pela sua linda face, que a labareda do fogo do inferno fazia oscilar os seus longos cabelos pretos, replicando para o diabo:

– Mentiu-me! Realmente, acreditei na sua prosápia. Mostrou muito mais poder de persuasão do que a minha…

De seguida, fecharam-se as portadas do inferno, até uma nova festança relativa a eleições.

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.