Muito recentemente foi fotografado um buraco negro por grupos de astrónomos, em várias partes do mundo, como corolário das incontáveis observações do cosmos, tendo como precursor o eminente cientista Albert Einstein. Este objectivo bem conseguido prova que não há fronteiras na busca de uma explicação científica para as origens da vida, de onde viemos e para onde vamos, temática, aliás, muito bem desenvolvida por um também eminente astrofísico, recentemente falecido, de seu nome Stephen Hawkins. Não é, todavia, este acontecimento que preenche a minha atenção nesta crónica, mas sim outros buracos negros que vão surgindo perante ao nossos olhos, de que pretendo tecer algumas considerações.


É manifesto que as alterações do clima, que se vão agudizando cada vez com maior intensidade e que provocam numerosos problemas a nível global, são motivadas, principalmente, pelas indústrias mundiais e pelo autismo dos governos, que resistem em nome dos interesses a tomar medidas de contenção sem se incomodarem minimamente com as futuras gerações. Caminhamos, assim, para o caos. E se lhe juntarmos o problema da proliferação das armas nucleares, teremos então os ingredientes para um buraco negro gigante, onde cairemos numa escuridão total sem que haja retorno possível. Devíamos todos parar para pensar como poderemos contribuir para salvar o planeta, começando desde já por seguir os procedimentos aconselhados pelos peritos mundiais nesta matéria.
Mas passando para o plano interno, ou seja, o nosso país, deparamos também com vários buracos negros. Um deles é o caso das greves um tanto selvagens que têm ocorrido nos últimos tempos e que crispam o ambiente social e económico, a que se associa um deficit no domínio das técnicas de negociação por parte de dirigentes sindicais e alguns governantes, para além de sermos um país dependente sem condições da grande resistência. Isto, sim, é que pode dar origem a buracos negros, não no cosmos, mas no país concreto, que é aquele em que vivemos.


E como se não bastasse o buraco negro financeiro, aberto em 2011, para o qual concorreram bancos problemáticos que acabaram por falir, com administrações bancárias altamente incompetentes que colocaram o país em colapso, verificamos que, afinal, este problema não foi neutralizado, uma vez que subsistem outros bancos a exigir biliões de euros dos contribuintes, com a sempre pronta concordância do governo, ainda que sejam negados níveis decentes de remunerações para quem trabalha arduamente e não veja as suas reclamações atendidas. Não se percebe por que razão se hão-de proteger bancos praticamente falidos no sistema, quando é sabido que não oferecem garantias e estão prestes a cair também num buraco negro. Nem compreendo, também, que perante tais exemplos tão negativos ainda haja pessoas que confiem as suas poupanças nestas instituições.
O mundo do futebol é outro buraco negro que afecta o país, considerando que conserva ainda o título de campeão europeu e tem um prestígio internacional a defender. Primeiro foi com as suspeitas sobre os árbitros; depois foi com clubes a procurarem influências desonestas e a desenvolverem jogos sujos de bastidores; em seguida foi com alguns empresários e jogadores, através de procedimentos corruptos visando viciar resultados, tendo-se chegado a um nível de degradação total neste desporto por a verdade ser posta em causa; e, finalmente, juntam-se os canais de TV com a república de comentadores, um caldeirão onde também têm assento políticos no activo, para incendiarem o que resta. O resultado de tudo isto é que o futebol, sendo um desporto apaixonante, caiu numa pocilga onde se alimentam interesseiros, alegados empresários, marginais, chulos, corruptos, parasitas da sociedade, comentadores vendidos, jornalistas tendenciosos e políticos pouco sérios. E tudo pelos euros que recebem ou podem vir a receber, já que o futebol movimenta muitos milhões e dá de comer a todos. Restam os jogadores, que são os verdadeiros artistas da bola, os mais sacrificados e os mais sérios, de cujos pés sai o alimento para tanta parasitagem.


Para finalizar, não poderia deixar de referenciar um playboy da société, JB, que pedia dinheiro aos bancos para comprar acções – como se estas tivessem um valor sempre garantido – assim como os gestores que decidiram os empréstimos de maneira cega. O resultado é que JB caiu num buraco, pois parece não ter nenhum bem em seu nome e agora não poderá pagar a dívida de mil milhões de euros. Não será um buraco negro para ele, porque jogou com a sua esperteza, que não é saloia embora o possa parecer, mas é-o para os bancos credores e para os gestores que decidiram os empréstimos.
Como se pode ver por esta curta abordagem, não faltam buracos negros neste pobre país. Não buracos negros como o que foi fotografado no Cosmos, que isso é doutra galáxia, mas buracos sem fundo, todos eles negros também, causadores de graves distorções neste ambiente sócio-económico, que é o nosso. Creio todos poderíamos contribuir com a nossa conduta para mitigar estas problemáticas, se seguíssemos o pensamento de Mahatma Gandhi, o pai da independência da Índia, que vos deixo:- “Vive como que fosses morrer amanhã. Aprende como se fosses viver para sempre”!

(Imagens: “Gaúcha ZH”; “WordPress.com”; “Mundo Educação”)