A “Casa Valença” foi fundada em 1839 e marcou a vida da cidade de Viana do Castelo desse tempo. Pertencia ao Sr. João de Passos Oliveira Valença, que era, naquela época, o chefe local do Partido Progressista. A “Casa Valença” era um estabelecimento comercial, mas para além disso, também funcionava como o ponto de encontro de uma vasta tertúlia que, ao fim do dia, ou abrigando-se da chuva ou da canícula do Verão, aí mantinham uma amena cavaqueira. Faziam parte dessa tertúlia, entre muitos outros: Camilo Castelo Branco (havia até um pequeno e simples banco, onde estava escrito “aqui sentava-se Camilo Castelo Branco”, que trabalhava naquela altura, no “A Aurora do Lima”; Guerra Junqueiro e o António Feijó.

A Casa Valença vendia fazendas e outros produtos de qualidade. Só lá se encontravam os cheviotes, as flanelas inglesas e os melhores tecidos fabricados em Portugal – tudo de superior qualidade e para vestimenta dos homens. Também vendia chá, «importado diretamente de Cantão».

No primeiro andar, a que se acedia por uma escada em forma de caracol, dentro do balcão, situava-se a melhor alfaiataria de Viana, onde trabalhavam os «mestres» Vicente, Fonseca, Peixinho e Leão.

O Leão era o alfaiate preferido de Guerra Junqueiro, a quem mandou fazer muitos dos seus melhores fatos.

Quando recolhia dados para um dos meus trabalhos, o último dono da “Casa Valença”, conhecido, muito carinhosamente por “Valencinha”, descendente dos antigos proprietários e muito amigo da minha família, mostrou-me, todo orgulhoso, uma carta de Junqueiro, que conserva como uma relíquia, para um seu antepassado, dono, ao tempo, do referido estabelecimento comercial. Nessa carta de Junqueiro, que estava guardada no cofre da referida casa comercial, e que possuo uma fotocópia, falava-se de um fato que Junqueiro teria mandado fazer ao tal Leão, quando o Poeta já teria casa na cidade do Porto. Esta carta está datada de 9/6/1892 e foi escrita em Viana do Castelo.

Registe-se que Guerra Junqueiro publicou “Os Simples” em 1892, livro repleto de um suave lirismo.

Quando foi fundada esta casa comercial, o comércio da Praça da Rainha (atualmente Praça da República) situava-se desta maneira: a “Casa Valença”, fundada em 1839, continua no mesmo local (infelizmente recentemente encerrou); a casa Havaneza (onde Junqueiro comprava, entre outras coisas, os seus charutos), também ficava na Praça da Rainha. O “Bazar Couto Viana”, onde se localiza atualmente o banco BPI, ao lado da atual pastelaria “Caravela” (ainda no meu tempo, havia o café Bar, mais para homens e a pastelaria Caravela, mais para senhoras que, infelizmente também já encerrou portas…mas desta falarei num próximo artigo).

Neste Agosto, tive a triste notícia, que me foi dada pela sua dona da Casa Valença, que iriam fechar e trespassar este tradicional e “histórico” espaço comercial. Perguntei as razões e ela apontou-me, sobretudo duas: a sua avançada idade e os desgostos que a vida lhe tem dado. Fiquei muito triste e, confesso, os meus olhos ficaram húmidos…