Há, entre o inesgotável manancial de temas fraturantes que incendeiam as redes sociais, um, em particular, que rompe com a lógica da divergência instalada, e que impõe um (raro) quase consenso: o défice de valores e princípios de cidadania percepcionado nos mais banais gestos do quotidiano, que, sendo obviamente transversal a todas as gerações contemporâneas, encontra particular incidência nas gerações que se encontram em pleno processo de construção cívica e de formação do seu “eu”. Neste campo da pedagogia comportamental há, efectivamente, um problema de educação, devendo esta ser interpretada muito mais no sentido literal da expressão (no plano dos comportamentos e atitudes), do que no sentido académico (do mero conhecimento) que lhe é comummente atribuído.

Em ruptura com o hábito enraizado de discordar só porque sim, parece haver nesta matéria uma inusitada e ampla convergência quanto ao diagnóstico do observado défice de formação cívica, particularmente prevalente na população mais jovem, assim como na identificação das suas causas, mas que finalmente se esbate, até à irrelevância mais inconsequente, quando a tónica da discussão recai sobre as estratégias a encontrar para o debelar. Na verdade, bem o sabemos, o busílis das questões ou dos problemas raramente está nas identificação das causas, antes na procura de soluções.

Reconhecendo o potencial impacto social dessa nossa debilidade na senda da prossecução de uma sociedade mais participativa, coesa e solidária, e ambicionando a sua mitigação, o governo de “extrema-esquerda” PSD/CDS-PP (ler com ironia) introduziu – e o actual PS manteve – no currículo dos 2º e 3º ciclos, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, subordinada aos princípios já consagrados na Lei de Bases do Sistema Educativo. Portanto, nada de novo, e muito longe de ser, como hoje tantos vaticinam num assomo de delírio, uma estratégia urdida nas soturnas caves das sedes do Bloco de Esquerda e do PCP, com o objectivo de encetar uma mega-operação de lavagem cerebral aos nossos alunos, inoculando-os com os “horrores da aculturação marxista” tão inenarráveis quanto abjectos.

Sim, pode parecer surreal, mas há mesmo quem afirme que as escolas estão tomadas por forças de extrema-esquerda, e que actuam como uma espécie de delegação avançada dos campos de formatação chineses ou norte-coreanos, tentando incutir aos alunos a homossexualidade como padrão sexual dominante, expondo-os a filmes pornográficos, instigando-os a mudar de sexo ou a negar a palavra do Senhor. Assim fosse, de facto, e os professores ver-se-iam reduzidos à triste condição de meros e subservientes activistas radicais de esquerda, amorais, de foice e martelo à cinta e com tatuagens do Che Guevara no braço, a espalhar a palavra do Diabo. Grande cenário, não é? Pois é, mas é um cenário que existe apenas na cabeça de quem abdicou de a usar para fins mais razoáveis.

Um ano volvido e regressa o tema (e a polémica) da obrigatoriedade de frequência da disciplina de Cidadania, à boleia do caso do “papá” conservador e temente a Deus que impediu os filhos de frequentarem a disciplina, garantindo que se trata de uma tentativa de “doutrinação ideológica”. Doutrinação ideológica? Conhecerão o currículo da disciplina de Cidadania? O real, que é leccionado nas escolas, não o ficcionado, forjado no preconceito que domina as suas mentes medievais. Pois bem, elenque-se lá os tais “horrores marxistas” que impingem às nossas crianças e as transformam em activistas radicais de esquerda: Direitos Humanos; Igualdade de Género (não confundir com “ideologia de género); Interculturalidade; Desenvolvimento Sustentável; Educação ambiental; Saúde; Sexualidade; os Media; Instituições e participação democrática; Educação para o Consumo; Segurança Rodoviária; Risco; Empreendedorismo; Mundo do Trabalho; Segurança, Defesa e Paz; Bem-estar animal e Voluntariado. E é isto. E “isto” são “apenas” valores transversais a todo o espectro político e social. Vá lá, quase todo…

Não estranho que a ultradireita recorra à desinformação, à deturpação e à análise redutora, manipuladora, enviesada e ideologicamente inquinada da realidade que lhe é menos conveniente. Estranho é que tais dislates encontrem tanto respaldo numa considerável franja da sociedade que os aceita como factos que nunca o foram. Educação para a Cidadania sim, mas apenas se for à moda de Santa Comba Dão, bafienta, decrépita e preconceituosa, e em que os valores humanos mais básicos, como o respeito, a tolerância e liberdade sejam apenas uma ficção. Esperem sentados…