Numa sociedade de “pronto-a-vestir”, como é esta, em que impera a impaciência e escasseia a tolerância e o bom-senso, qualquer revés ou quebra de expectativas encerra em si um incalculável potencial de rejeição popular, podendo desencadear, com uma facilidade aterradora, perigosos fenómenos de mobilização em massa e de manifestações “pseudo-espontâneas”, inquinadas pelo oportunismo de anarcas infiltrados ou de militantes das extremas esquerda ou direita, a quem razões e factos dizem muito pouco. É como assar sardinhas sentados num barril de pólvora: é possível, mas arriscado.
Muito por culpa própria (culpa que todos enjeitam, claro), a Europa – Portugal incluído – parece viver a sua própria “Primavera Árabe”, e desta feita o epicentro dessa revolução é também o centro da Europa. O estado de sítio em que, por estes dias, vive Paris, é disso a mais perfeita materialização. De um protesto circunscrito a um muito limitado e perfeitamente identificado sector da sociedade francesa (os originais “coletes-amarelos”, hoje multicolores), motivado por razões também elas concretas – anunciada subida dos impostos sobre produtos petrolíferos – ao caos absoluto, à destruição indiscriminada e à violência cega e crescente apoiada pelo inenarrável Trump, distaram apenas uns dias, muitas razões legítimas e outros tantos pretextos forjados. No seio de uma multidão em fúria, não há qualquer lugar para a razão, nem para a moderação, nem para o bom-senso, por mais justas e atendíveis que tenham sido, de base, as reivindicações. E eram-no, de facto! Mas embalado por um irracional espírito de matilha, o Homem racional e sensato reduz-se, então, à condição de delinquente, e a causa, outrora justa e justificada, perde razão, perde força, perde sentido. Mas alastra como fogo em palha seca…
À boleia de um instantâneo acesso à informação, pouco interessa se fidedigna ou deturpada, apaziguadora ou incendiária, hoje, literalmente à distância de um dedo num “smartphone”, galgam-se fronteiras em dias, rompem-se mordaças em horas, moldam-se consciências em minutos e lança-se o caos em segundos. Neste pressuposto, o pior erro que podemos cometer é esmorecer, escudando-nos na distância (geográfica e cultural) que nos separa de Paris, assim como no volátil conforto conferido pelo sentimento de segurança de que os nossos “brandos costumes” impedirão qualquer mal maior. Claro, esta presunção de absoluta imunidade pode ser confortável, mas é sobretudo perigosa porque nos faz baixar a guarda e desconsiderar um risco que é objectivamente real, tornando-nos mais vulneráveis a fenómenos de instabilidade social de larga escala e, por isso, de desfecho e dimensão imprevisíveis.
É verdade que, por cá, a revolta está ainda latente, em estado embrionário, surgindo tímida e envergonhada. Mas achar que não existe porque ainda não se vê ou sente é de uma ingenuidade tal que poderá fazer-se pagar cara, pois que, com especial recorrência nas redes sociais, as fileiras de descontentes vão engrossando a um ritmo diário, assim como, convenhamos, as razões que, no global e de facto, lhes assistem, não obstante a melhoria transversal dos principais indicadores sócio-económicos operada nos últimos anos, insuficiente ainda para se reflectir no dia-a-dia e na qualidade de vida dos portugueses.
Quando pouco ou nada há a perder, tudo há a temer. Se os coletes são amarelos, o alerta que já devia estar a soar por cá é de um vermelho tão vivo que se torna difícil de ignorar e impossível de branquear. Isto, claro, se houver o que sempre tem faltado: sentido de responsabilidade. Esperemos que o fogo nesta quadra natalícia seja apenas o das nossas lareiras…
Festas felizes!!!

(Foto: “Época”)