Na rua onde nasci, outrora não dispunha de nome, atualmente a toponímia atribuiu-lhe o nome de Joaquim Fernandes Moreira, ex-presidente de junta de freguesia de Vila de Punhe.
A reminiscência aconselha-me a descrever o que havia como comerciantes, lá bem longe, na minha infância naquela rua/estrada das Neves.

Dispunha o senhor “Carvalho” uma moagem. Para além do barulho diurno das mós, possuía um gira-discos ou grafonola, coisa rara naquele tempo, que operava música todos os dias… e onde pela primeira vez houve sessão pública de cinema! Eram pessoas com razoáveis recursos económicos para a época.

O “Canetas”, pai, músico e alfaiate, secundado por seu filho Amadeu. Com alfaiataria montada que se dedicavam à confeção exclusiva de roupas para homem. A sua clientela era selecionada. O “tio Augusto da Mariana”, com oficina também de alfaiataria, fabricava sobretudo calças, que vendia exclusivamente nas feiras de Arcos de Valdevez, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, etc.

Ao lado, o “Domingos Castanheira” dispunha de uma forja. Aguçava quase todos os dias os ponteiros e cinzeis trazidos pelos pedreiros-canteiros oriundos do lugar de Milhões, que trabalhavam na construção do templo-monumento de Sta. Luzia. Faziam o percurso desde o lugar de Milhões, Vila de Punhe, a Sta. Luzia, a pé, ida e volta no princípio e fim de semana. Impensável nos dias que correm! Dispunha o mesmo industrial, de uma armação própria para ferrar os cavalos, talvez única na região, também em extinção. Paralelamente, vendia, alugava e reparava bicicletas a quem pretendesse, e não eram poucas as pessoas que se muniam deste transporte de aluguer. Ali se faziam reparações de toda a ordem e até mesmo nas pequenas motos que começavam a aparecer.

Na travessa, (caminho entre as duas estradas à entrada nas Neves), o “Tone Pequeno” com o seu comércio de pronto a vestir e fazendas. Recordo também, o senhor “Piçarra”, encarregado que dirigiu as obras da estrada que faz o desvio ao lado das Neves, bem como os muros em pedra que limitam as propriedades de um lado e de outro e que ainda hoje se podem ver ao longo daquela via que na altura foram expropriadas para o efeito. Obras da Junta Autónoma das Estradas. A “tia Engrácia” que no mesmo local nos vendia os chupa-chupas quando íamos para a catequese. Dois tostões que custavam e com que dificuldade os conseguíamos junto dos nossos pais!…

Na subida para o largo das Neves, a seguir à casa de meus pais e avós, o “António Quintas”, que foi emigrante em França vários anos, mais conhecido pelo “Quintas da Lão”, porque negociava em lã e outros produtos. O rés do chão da sua casa era o armazém. As pessoas que dispunham de ovelhas, no período em que as tosquiavam, vendiam-lhe a lã que, por sua vez, a revendia para transformação. Andava pelas feiras de Ponte de Lima, dos Arcos de Valdevez, de Ponte da Barca e outras, juntamente com a sua esposa, a “tia Quinhas”. Dedicada senhora que bem conheci no seu trabalho, madrugando diariamente para a azáfama.

O vizinho do lado: o “Ferreiro Lacerda”, com a sua forja, a bigorna, e a serralharia que dispunha; a “tia Adelaide da Órfã,” com as aulas de catequese aos miúdos da minha geração. Mesmo em frente, a “tia Júlia Marchanta”, tasca e talho, que ainda hoje funciona com os seus descendentes. Única na aldeia. Recordo ainda o tempo em que ali mesmo ao lado se matavam as vacas e os porcos antes mesmo que os animais fossem obrigados a ir para abate nos matadouros. Ao lado, o “Filipe Bandeira” com as suas bicicletas de aluguer e o “tio António Raites”, homem de lavoura e alfaiate. Bem encostado a ele, a moagem do “Mendo”. Dali saiam as fornadas para a maioria das famílias que ali levavam o milho ou compravam a farinha para cozerem a broa. Indispensável naquele tempo. Em frente, a mercearia, vinhos e petiscos da “tia Palmira” Já não existe. Talvez a mais antiga daquela rua, na época, proporcionava grandes convívios ao ar livre a toda a clientela. Essencialmente aos fins de semana.

O “Batateiro”. Assim era conhecido, já perto do largo das Neves. Ali havia de tudo. Ainda recordo de o ver sentado fora da loja, naqueles bancos de pedra. Em frente o “tio Joaquim Moreira”, grande industrial da confeção de roupas para homem que vendia nas feiras, secundado depois pelos seus filhos que ainda há pouco tempo seguiam os seus passos.

Os “Carreteiros”. Assim eram chamados. Recordo o “Costa e o “tio “António Quintas”. Estes “transportadores” da época. Saíam de madrugada com os carros de bois para Viana, levantar as encomendas, entretanto feitas pelos comerciantes aos viajantes que por ali passavam de bicicleta, e, regressavam pela tarde para efetuar a distribuição dos pedidos. Trabalho penoso, não só para eles, como para os próprios animais. De realçar que a estrada ainda não era alcatroada, o que obrigava a muito mais esforço dos animais. Já lá vão seis décadas e meia!

Para que conste, aqui ficam estes apontamentos decorridos naqueles tempos. De realçar que as personagens de que se fala nenhuma faz parte dos vivos. Eram tratados de “Tios e Tias” na minha infância, na aldeia, títulos agora designados de “Dona e Senhor”, respetivamente. Os tempos mudaram!

Apenas se pretendeu fazer um pequeno registo das atividades económicas vigentes naquele tempo, naquela artéria, para que possam ser lembradas e para que sirvam de registo histórico para os mais novos. Retenho na memória estas circunstâncias que me trazem a recordação de outros tempos da minha terra, Neves.