O namorado, para a Rita, “é um caso sagrado que nem missa nos dias de domingo”, confidencia a jovem para as amigas. A Rita é uma  manicura competente, que aprendeu com mestria os cuidados estéticos das mãos e das unhas. Desempenha a profissão num instituto de beleza, onde massaja as mãos, apara, limpa e pinta as unhas dos homens e mulheres. É esperta, cheia de vida, com um sorriso cativante a aflorar-lhe na face, mas complexada e totalmente submissa ao Roberto, seu apaixonado. O que ele disser, para ela, é uma ordem, porque é muito mais do que um namorado. É um conselheiro, um verdadeiro confidente, que na sua visão a acompanha em todos os momentos. É o seu primeiro galanteador. Foi aquele que também a despertou para os prazeres do sexo. Para ela, até o conhecer, aquele instante sublime era alcançado pelo que via nos filmes, nas novelas, ou nas imagens da leitura dos livros de pornografia. Só virtual. O Roberto trouxe-a para o plano real.

Esta personagem, no aspecto da vivência humana sabe fingir com perspicácia, mostrando-se, nas entrelinhas, um machista na mais grotesca referencia à palavra. Passa os fins de semana na casa dela. Não quer que saia sozinha. Pretende saber tudo acerca da sua convivência. Há discussões frequentes devido à profissão que exerce. Proibia-a de relacionar-se com outros homens. A Rita tem vindo a desculpá-lo, chamando a estes actos “o capricho do meu amor”, porque ela não vê defeitos nestes procedimentos. Aliás, não via. Só que a rapariga principiou a amadurecer. Virar a mulher. Começou, então, a impacientar-se com estas atitudes.

  • Comigo podias ser mais gentil. Afinal, estamos juntos quase há cinco anos! — disse, com ênfase, após discutir com o companheiro, que não fora visitá-la, num sábado à noite.
  • És incompreensiva, mesmo, não és, mulher? — interrogando-a. — Já justifiquei que fui visitar e fazer companhia a um amigo que sofreu um acidente e estava hospitalizado. Na verdade, a Rita passou a ficar duvidosa. Desconfiada, sim, de que, por vezes, estava a ser enganada. As discussões e os conflitos foram aumentando. A moça, exaltada, cobrava ciúmes.
  • Um dia — fazia pausa — vou-me cansar! — Avisava. Surgiu, no tempo, a oportunidade para o prometido. O Roberto chegou a casa da Rita, um sábado ao fim da tarde, replicando, ríspido:
  • Vou para o aniversário de um amigo, numa casa na praia. Volto segunda-feira de manhã.
  • Deixa-me ir. Vais sozinho? — perguntou.
  • Não dá — respondeu com certa indiferença. Lá — continuou — só vai haver homens. Vais ficar deslocada e o pessoal fala muito palavrão conjugado com atitudes obscenas. Não se conformou, mas teve de aceitar. Num dia da semana, à hora do almoço, no trabalho, recebeu certas notícias de uma colega.
  • Vou contar-te uma situação que se passou. Entendo que precisas de saber. Se fosse comigo, gostaria que fizessem o mesmo.
  • Contar, o quê? — interrogou.
  • Uma amiga minha viu o Roberto, passeando, de mãos dadas, com uma jovem na praça principal, lá na praia onde foram.

A Rita ficou perturbada. De chocada, apareceu o azedume, que passou para o ódio, resolvendo tomar uma atitude drástica.

Mulher apaixonada, quando se contraria, é um perigo. O Simão, seu vizinho, que a corteja, foi o alvo, ou melhor, o seu instrumento de vingança.

  • Olá, Simão, como vais? — inquiriu.
  • Tudo bem, Rita. Que surpresa estares aqui! — afirmou o vizinho, que tinha levado um não da manicura, há dias, numa tentativa de aproximação mais ousada, que fazia de vez em quando.
  • Quero saber se tudo o que me tens vindo a dizer é mesmo verdade? — confrontou-o, a sorrir.
  • Mas claro que é… — pausando, com ar de incrédulo. — Porquê?…
  • Porque, agora, está na hora de provares. Entrou no apartamento dele e entregou-se, afirmando, com um sorriso provocador:
  • Vem!

Estava cega de raiva. Só queria, por aquela forma, punir o Roberto.

  • Agora vou dar um tempo ao cenário da provocação, parando a cumplicidade. — afirmou à colega que a tinha posto ao corrente do problema amoroso.
  • Mas só faz uma semana que estás com o Simão! — questionou.
  • É… — arrastando a voz — mas gosto do Roberto, amiga! Apesar de ele ser um safado, não posso negar que é a pessoa que me faz feliz.
  • Aí é que stás enganada! — replicou a amiga.
  • Enganada, porquê?
  • Se usaste o Simão sexualmente, e o vais dispensar, não traíste o Roberto, não!
  • Mas eu envolvi-me com o Simão! — exclamou.
  • É. Mas só foi com o corpo. Um homem só é enganado quando a mulher entrega o coração ao outro, também.

As palavras da colega iam soando como um doce, mas frio no prato da vingança, já que, então, só tinha agido enfurecida. Resolveu continuar com o vizinho e manter os dois romances para melhor saborear o cardápio da desforra.

O Simão sabia de tudo, mas estava investindo para a tentar conquistar. O Roberto não desconfiava. Já fazia alguns meses que sustentava o triângulo amoroso. Um dia, resolveu abrir o jogo. Narrou tudo. Iniciou o caso — informou — quando soube que o namorado estava de mãos dadas, e não só, com uma moça na praia. O Roberto ficou triste, reticente e abatido. Pediu perdão. Prometeu que ia mudar, no futuro, o seu procedimento.

  • Vou ser um novo homem — expressou com convicção.

A Rita olhou para aquela criatura que era tão bruta e, agora, tão necessitada de indulto. Resolveu, então, desculpar. Voltaram às boas. Para sair daquele emaranhado intrigante foi falar com o Simão.

  • Não dá mais para continuar. Contei tudo ao Roberto. Prometeu pedir-me, brevemente, em casamento. Vamos morar noutro local, a fim de quebrar os acontecimentos.
  • Não consegui, mesmo, fazer com que gostasses de mim? — perguntou o Simão.
  • Ai, Simão, és um homem  fantástico, mas não te enganei. Sabias, o tempo todo, que amo o Roberto. Agi, sem dúvida, por um impulso de forte agastamento.

A Rita e o Roberto casaram-se. Iniciaram uma vida nova…

 

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.