Regabofe, provocações avulso, desprezo institucional, mentiras descaradas, amnésias convenientes, ingenuidades forjadas, inocências forçadas, gozo descarado e um insustentável cheiro a absoluta impunidade, ainda que perante um golpe evidente aos olhos (e à carteira) de todos nós. É essencialmente isto, e nunca o mais pequeno indício da verdade dos factos, que se extrai das todas as sessões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de acompanhamento à situação financeira calamitosa (e inquestionavelmente criminosa) do velho BES. Perdão, do Novo Banco. Mero eufemismo…

O actual elenco desta peça trágico-cómica vê-se refrescado com a chegada de novos protagonistas, mas a trama, essa, é já sobejamente conhecida de todos. Do inenarrável “comendador” Berardo, ao impoluto Zeinal Bava, passando pelo inocente Armando Vara e terminando no pobre Ricardo Salgado, (entre infindáveis outros), muitos foram aqueles que, tendo passado pelo mais ou menos apertado crivo de sucessivas comissões parlamentares de inquérito, fizeram da vitimização, da amnésia e da transversal tese da cabala ou do mero azar o seu principal caderno de encargos, procurando – em vão – justificar com pueris fábulas as patranhas que os factos se encarregavam de desmontar sem especial dificuldade. Quais velhas carpideiras, tão pretensamente cândidas quanto obviamente hipócritas, juravam, todas elas, entre baba, ranho e um interminável chorrilho de “petas”, um mesmo denominador comum: a sua absoluta inocência. Uma inocência tão sólida quanto o é uma gelatina de morango, e que só engole quem quer.

A presente CPI em nada diverge das anteriores (excepto nos protagonistas). Qualquer diferença que possa vislumbrar-se entre elas, se é que há alguma, estará integralmente circunscrita ao campo da semântica, já que em substância nada as distingue. Nem nas causas que as motivaram, nem nos actos procedimentais que as conduziram, e muito menos nas consequências que daí resultaram ou venham a resultar: nenhumas! Mais, todas elas reduzem os deputados – todos eles, sem excepção, especialmente assertivos – a irrelevantes “verbos-de-encher”, e a Assembleia da República à condição de simples circo, oferecendo ao público números de malabarismo, de equilibrismo e de ilusionismo tão arrojados e surreais que certamente farão corar de vergonha o próprio Circo Cardinali. Trata-se de um circo tão peculiar que transforma o público em palhaços, e os palhaços do palco em gente séria. Será, pois, o único circo do mundo em que os palhaços estão sentados na plateia e têm a cara pintada não de tinta e batom, mas de vergonha alheia, de revolta e de impotência. Afinal não se trata de uma comissão de inquérito. É apenas e só uma palhaçada!

Mais do que lamentar o que já vai, importa perceber-se, para que um dia alguma mudança se opere, como é possível que um modus operandi recorrente, que assenta no tom de constante desafio, nos dislates provocatórios e na negação do óbvio e dos factos que lhe dão corpo, seja replicado uma e outra vez por todos os inquiridos em todas as comissões. A resposta é tão simples quanto inaceitável: fazem-no, porque podem. E podem porque sabem que, para além da inevitável humilhação pública a que se sujeitam e que aceitam, a troco do conforto que só os milhões esbanjados ou indevidamente apropriados podem garantir, nada mais lhes acontece.  Grassa a impunidade e, a reboque desta, perpetua-se a palhaçada.

Não há panaceia milagrosa que debele a falta de vergonha endémica, que imponha a verdade e que repare os dados causados. Sabemo-lo bem. Mas há certamente estratégias e mecanismos que podem contribuir decisivamente para que o apuramento da verdade em sede de CPI se faça e tenha efeitos consequentes, capazes de dissuadir a mentira, a provocação e o gozo. Desde logo, abandonar-se a figura do “convite”, e assumir-se, sem tibiezas, o direito à “intimação” pura e dura dos visados. Depois, garantir que, perante órgãos de soberania como é a Assembleia da República, os depoimentos relevem integralmente para os eventuais processos judiciais que possam existir a montante ou a jusante da audição. Ou, ainda, garantindo que a mentira demonstrada, a manipulação de factos ou a recusa em responder tenha consequências tangíveis, que não apenas as que passem pela tal humilhação pública, absolutamente inócua para quem é invertebrado moral. Tudo o que possa contribuir para que esta CPI não passe, afinal, daquilo que em verdade e em rigor tem sido: um decadente e inútil “Circo de Pobre$ Inoc€nt€s”…