As mercearias tradicionais deixaram de existir na cidade de Viana do Castelo, e talvez em todo o concelho, embora o afirme com certa reserva. Havia, ainda uma na Rua General Luís do Rego, já com algumas adaptações. Devido à época, mas que acabou por fechar. Desapareceram, por completo, as lojas genuínas onde se vendia um pouco de tudo, desde as roupas ao calçado, aos produtos comestíveis e, até mesmo, o carvão fóssil e o extraído da madeira, juntamente com as matérias petrolíferas, aliado aos utensílios de barro preto e vermelho para serem utilizados, nesse tempo, a maioria na preparação de comida. Acabaram, por completo, os artigos manipulados.

No momento actual percorremos a cidade e não encontramos essas mercearias que se tornaram um ex-líbris do passado. Os cartuchos de papel, tipo mata borrão, deram a vez aos sacos de plástico, que se encontra previsto, agora, que irão deixar de circular, na caminhada de salvar o planeta Terra. A maioria da juventude, se não a totalidade, desconhece a figura do aferidor de pesos e medidas ligado às câmaras municipais. Confrontava, para acerto, com os padrões legalmente em vigor e aprovados pelo Governo, mediante Portaria, as balanças, os pesos e as medidas existentes nos estabelecimentos abertos ao público e onde se comercializavam os produtos sólidos e líquidos, porque tudo era vendido a granel. Era uma panóplia de géneros manipulados, que a população residente ou passante procurava. Neste cenário de pesar e medir, apareceram, depois, as balanças decimais, que tudo isso se tornou em coisas de museu ou para servirem de bibelôs. Os balcões de madeira, tantas vezes ensebados, pois era aí que se cortava o bacalhau com um grande facão preso a esse móvel, juntamente com o sabão, a carne de porco salgada e os enchidos são, no presente, de alumínio, mármore, granito ou outros materiais semelhantes, numa frieza e antipatia na conjugação com o tempo decorrido. Até já há máquinas de self-service.

No interior dessas casas comerciais havia acolhimento amigo por parte do negociante, contrastando, bastante, com algum atendimento da época contemporânea. Nesse tempo, cheques, nem vê-los. Cartões de crédito muito menos. A solução era a venda a fiado, embora existisse exposto o manguito de Bordalo Pinheiro, que não funcionava. As despesas, todas certinhas, eram anotadas num livro. No fim do mês, recebido o salário, logo se via. Quando passava das marcas, num esticar da corda ou apertar o cinto, até se podia pagar com entregas periódicas. Comia-se sardinha ou chicharro, que nesse tempo esta espécie de peixe tornava-se barato, além do bacalhau fininho, quase só peles, espalmado, porque o graúdo era para dias de festa, bem como esse mesmo bacalhau demolhado em alguidares, além das sardinhas em salmoura, designadas por “barrentas”, que ainda se encontram numa banca do mercado municipal.

A carne era cara. Mas ainda não se tinham lembrado de afirmar ou inventar que esses animais que nos dão a saborosa carne e os seus derivados colidem com as condições de vida da humanidade. Foi um passado que se findou. Vidas inteiras atrás de um balcão. Filhos que aprenderam com os pais. Alegrias e tristezas de uma época que acabou. Era a porta aberta, de manhã à noite. Pelo meio apareciam alguns calotes. Mesmo assim, mantinham o sorriso, através de uma palavra amiga, na procura de um entendimento para pagar a dívida, na esperança da venda de um vitelo, de animais de chiqueiro, de aves de capoeira, ou produtos da horta, ou, também, do vinho produzido nas vindimas da ocasião, conjugado com o amanho do leite dos animais de curral e levado ao posto de recolha. Isto, evidentemente, no universo da gente das aldeias.

Neste andar mercantil surgiram os supermercados, numa aliança com os mini-mercados, talvez como rocambolesca designação para a adaptação das antigas mercearias. Vieram, de seguida, os hipermercados e as grandes superfícies, onde se transcciona, pode-se afirmar, quase tudo. Até se inventaram as lojas de conveniência, que se trata de uma espécie de pronto a vestir para um sem número de coisas. Com tudo isto a aparecer, sem dúvida, foi o princípio do fim para muitas pessoas ligadas às características e saudosas mercearias de antanho, que fecharam, ou tiveram de se adaptar às actuais circunstâncias de evoluir no panorama comercial.

 

Nota: Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico