Integradas no quadragésimo aniversário do Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo apresenta duas excelentes exposições para ver durante este mês de novembro. No 1º andar dos Antigos Paços do Concelho, Praça da República, “40 anos – Estéticas individuais para uma História Coletiva / Memórias Série II” e na galeria Barca d’Artes, rua dos Manjovos, “Além da luz, para lá das sombras” de Mário Madeira. Duas exposições a não perder!

Sobre a primeira, trata-se de uma oportunidade rara de ver um pequeno conjunto de obras selecionadas do já muito significativo espólio do CCAM à guarda do Museu Municipal de Artes Decorativas de Viana do Castelo e de encontrar na mesma exposição trabalhos de artistas que em períodos mais recentes têm exposto na Barca d’Artes. O resultado, em qualidade, força e até, de algum modo, harmonia da mostra no seu todo, apesar da grande diversidade de temas, estilos e linguagens, torna esta exposição um caso muito especial e imperdível.

Da exposição patente na Barca d’Artes, de Mário Madeira, que fez a primeira década do seu percurso artístico por terras de Itália e que desde 2001 passou a viver em Caminha, fui buscar o título deste “rodapé cultural” a um texto que escrevi sobre a sua arte há alguns anos, que regista o meu sentir sobre o triângulo “autor/obra/público, numa perspectiva simples, que passo a citar: Creio que há uma energia na arte de alguns criadores que nos torna naturalmente cúmplices para além da arte, quando a redescobrimos na fruição. Aí, encontramos outros mundos, alargamos realidades, saímos do espartilho do óbvio poderosamente estabilizador e sentimo-nos mais próximos das revoltas e dos sonhos que nos fazem mais humanos. Ficamos mais vivos, mais atentos, mais identificados com um mundo de gente que se move em reflexos infinitos de uma cultura para viver, não para colecionar. Sentimo-nos bem na inquietude de cada tela ou objecto e na procura de novos apaziguamentos, numa espécie de reconciliação connosco, carregada de contradições absolutamente coerentes com a vida real, na sua substância mais funda e não apenas na apreensão imediata da forma. Não sentimos artifícios para adormecer os sentidos e disfarçar as contradições.

…Inquieta-nos e sossega-nos. Nesse jogo que se ajusta a um mundo muito seu que ele nos franqueia para se tornar também nosso. Sem explicações. Sem conversa que traduzam e arrumem. Com conversas, como esta que estou aqui a fazer, o Mário Madeira não lida nada bem. Pois é! É melhor parar por aqui. Talvez já me tenha excedido. Falado de mais. Vejam a exposição e ao autor não perguntem nada. Reinventem-se nela e imaginem o vosso próprio mundo. Há artistas assim. Não gostam de manuais de utilização para os seus trabalhos. Odeiam que a arte seja passeada pela trela, para fazer as necessidades a horas certas. Tratam a harmonia e o caos com a mesma paixão. E nunca prescindem da sua liberdade!

Carlos Torre