O coronavírus fez-nos desacelerar as atividades e o frenesim das conclusões sempre adiadas. Ficamos em casa e revemos papeis , limpezas, livros, amigos pela Internet. Mas a vida, essa, não foi desacelerada, ficou pendente algures, entre receios e heroísmos. Não é tempo de medos, mas de atuação. Aos médicos pedem a total disponibilidade para os outros, que sofrem. Mas não só aos médicos, a outros profissionais de saúde,  e profissões. Alguns heróis desconhecidos aparecem, anónimos, como sempre, em tempos de crise.

Não sei se será a pior pandemia de sempre! A humanidade já viveu outras, terríveis e sem meios, e menores conhecimentos.

Alguns não sabem bem onde vão buscar tanta resiliência! Mas não vivemos em guerra, não nos caiem bombas em casa, não destroem os nossos objetos lembrança, as nossa fotografias de gerações, as nossas jóias de família, o nosso espaço de lazer. A nossa despreocupação de andar pelas cidades, é verdade, foi alterada. A nossa relação com os outros, foi revista, mas não morrem em sangue, pessoas de todas as idades e condições, Morrem de doença grave, sobretudo os nossos idosos,  quase sós de família, mas não de falta de humanidade das equipas de saúde. Os idosos são a nossa história.

Esta “guerra” é má. Como todas as guerras, são más!

Esta guerra caiu-nos em casa, e vivemos angústia por ela. É tempo de pensarmos que as guerras são sempre más. É tempo de pararmos outras guerras, Que afinal não estão tão longe das angustias agora vividas, e melhor compreendidas(?), com a experiência destes dias. É tempo ,agora que temos tempo, para pôr ideias em ordem. É tempo,  de ter tempo, para exigir e trabalhar pela Paz. Olhar as crianças que vagueiam pelo mundo, fruto de guerras fratricidas. Olhar outros seres humanos que se deslocam, acalentando esperança de sobrevivência, sem condições de saúde, casa, ou comida. Que vivem, neste instante, guerras, exangues de tudo, e acrescentados deste vírus que vive em todo o lado. Nunca mais seremos os mesmos depois desta crise? Esperamos que sim. Nunca mais! Que sejamos melhores! Mais solidários.

Que sejamos  mais exigentes e críticos, na escolha de líderes. Em todo o mundo, há-os que arrastam seres humanos para a miséria.

Que tenhamos consciência que o mundo tecnológico nos pode aproximar, ou desorganizar. Que o conhecimento biológico, químico, medico, genético, nos abre campos insondáveis de mudanças sobre a vida e a morte e esta é uma questão, que nos pode salvar, ou destruir. Se continuarmos distraídos na nossa vidinha de consumidores desenfreados e socialmente indiferentes,  nada de bom nos espera!

O Papa reza sozinho, na praça do Vaticano, vazia. É uma imagem paradigmática. Uma criança de 4 anos morre, a fugir da guerra, com a família, de barco, na ilha grega Leblos.

Estamos em casa, refugiados. Que o melhor de cada um possa aparecer agora! Que a indignação resulte em atitudes de mudança!

  “…se você se preocupa, faça do mundo um lugar melhor…

   um pequeno espaço…

cure o mundo” …de Michael Jackson

 

Luísa Quintela

CCAM/Medica Psiquiatra