A Praça encanta-nos, particularmente em dias ensolarados, com esplanadas repletas de gente, em conversa animada, observando à distância os transeuntes que, não tendo tempo para tertuliar, por ali transitam. Todas as praças do mundo são lugares de encontro, de vivências e de negócios. A nossa Praça da República não foge a essa rotina, mas é diferente. A nossa Praça merecia bem ser tratada em livro, tanta história ela tem para contar.

Joaquim Terroso ouvia-nos calado e algo ausente. Não estava bem disposto. Meio engripado e sozinho, porque a família já tinha partido rumo à capital, sentia-se triste. Saindo da sua abstração, diz-nos: “gostei de vos ouvir. De facto, esta nossa Praça, pequenina, mas acolhedora, tem um encanto inigualável”.

Saindo lentamente da sua letargia, continua. “Em 12 de dezembro de 1963, assisti a uma palestra no Rotary Club de Viana do Castelo, na qual era orador José Rosa Araújo, que produziu um discurso, subordinado ao tema ‘A nossa Praça’. Bonita comunicação fez este homem brilhante. Disse-nos que este espaço, denominado Campo do Forno, fora das muralhas da vila, começou a figurar-se com a construção da casa do Município – que hoje conhecemos como Antigos Paços do Concelho – no princípio do século XVI, para alojar o senado que reunia na Torre de menagem no interior amuralhado.

E Terroso, a quem parecia ter passado a sonolência e a tristeza do isolamento, continua. “Dizia então Rosa Araújo naquele estilo comunicativo cativante, sempre de dedo em riste: ainda no século XVI, funda-se o Hospital da Misericórdia, com aquela varanda extraordinária, exemplar único, não havendo nada semelhante no país ou fora dele. Depois, a Câmara encomenda o chafariz a um mestre canteiro, exigindo que o risco dele superasse os que havia já para Caminha e Ponte de Lima”. 

E assim se começou a construir a nossa Praça, dissemos nós. Sim, diz Terroso. “Bom, depois, ainda segundo Araújo, a burguesia endinheirada, mercê da subida vertiginosa de importância marítima e comercial, encarregou-se de ir edificando os renques de estéticas casas que completariam este belo espaço, para de seguida ganhar o estatuto de espaço principal da vila, ao ponto de lhe mudarem o nome para Rainha, em 1852, com o intuito de homenagearem D. Maria II, a tal que nos deu cidadania; e posteriormente para República, por esta ter acabado de se implantar, com o objetivo de nos trazer mais progresso e liberdade”.

Depois, passou a ser a praça dos nobres, dissemos de novo. É verdade, assenta o nosso Joaquim. “Toda a intelectualidade do burgo aqui assentava arraiais, assim o disse também Rosa Araújo, rematando: ‘Já no século XX, tudo quanto Viana contou de brilhante, de notável pelo talento ou pelo espírito, passou pela loja do Valença’. Mas a loja do Valença também eu a conheci, essa é que dava um grande livro. Estabelecimento de venda de fazendas, com alfaiataria no 1º andar, e com a especialidade de fornecer chá, que se dizia importado diretamente das paragens da China ou do Japão, como disse Araújo na sua conferência no Rotary. O que naquela loja se murmurou, o que aquela intelectualidade ranhozou, apontando inércia à cidade em cada canto”.

Muito bem, Senhor Joaquim. No fim do nosso roteiro voltaremos a esta preclara Praça. Talvez, talvez, respondeu-nos.