Fugidiamente, já aqui abordei o chamado “cumprimento de serviço militar obrigatório em defesa da pátria”, esse chavão canhestro que o Estado Novo adotou para legitimar um conflito que contrariava toda a lógica do mundo moderno. Quando a maioria dos países colonizadores deixavam de o ser, acautelando os interesses de todas as partes, quem nos governava decidiu, quixotescamente, enredar-se numa guerra sem sentido, apenas em proveito de alguns.

Os minimamente esclarecidos sabiam que iríamos pagar caro esta aventura. E o resultado foi a ruína para centenas de milhares de pessoas, que na hora da independência se viram obrigados a fugir com pouco mais que a roupa do corpo. Mas o pequeno grupo de famílias detentoras do poder económico nesses lugares, defendidos à custa de mortos e estropiados incontáveis, não saiu de lá com uma mão atrás e outra à frente, tal como aconteceu à “legião” dos chamado retornados.

Mas outras análises podem e devem ser feitas. Alguém que tenha observado com atenção a vida social nas colónias, mesmo sabendo que a guerra que se travava era injusta e de fim duvidoso, constatou, entre outras realidades, que se havia gente de cor explorada, também havia brancos que o eram (o racismo é da mesma forma uma realidade entre classes sociais); que havia colonos que tratavam bem os seus empregados, independentemente da cor da pele; que as raças se foram cruzando, com muitos brancos a constituírem famílias estáveis casando com mulheres negras e vice-versa; e que muitos colonos levaram o progresso às regiões mais recônditas, construindo e desenvolvendo vilas e cidades em todo o universo colonial. Como bem diz Miguel Sousa Tavares, o pior erro da colonização foi não ter sabido preparar uma elite para governar as independências, evitando assim os descalabros a que estamos a assistir.

Também é à luz de algumas destas evidências do passado recente, ou de há séculos atrás, que a história tem que ser feita. O mundo sempre esteve em permanente mudança e em cada tempo os comportamentos de colonizadores e colonizados, bem como das populações em geral, ajustaram-se às culturas desse mesmo tempo. Daí que a história não se respeite derrubando estátuas ou escondendo-as envergonhadamente.

A história valoriza-se e aprofunda-se com as estátuas no seu lugar, porque em cada uma há um passado e uma vida que a história tem que julgar, louvando o que de melhor representa e condenando o que de pior se fez. O tempo presente, por si só, rejeita o pior do passado, tal como o futuro haverá de rejeitar o mal presente.
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