Vamos na sexta semana deste segundo confinamento e, depois de impressionantes angústias e dramas diários nos hospitais de todo o país, felizmente, a maldita curva começou a ceder. E tão exponencialmente quanto fomos assistindo, impotentes, ao aumento cavalgante das fatalidades, também abruptamente, se inverteu a desditosa e funesta tendência. Justamente quando já estávamos doridamente insensibilizados à notícia que trezentas pessoas perdiam a vida por Covid-19, em Portugal, a cada 24 horas; justamente quando os profissionais de Saúde atingiam o limite de todos os limites razoáveis, já ultrapassados há muito; justamente quando já era evidente que o fecho das escolas só pecou por tardio, tais foram os efeitos que, dias após a medida, se verificaram; justamente quando já estávamos coletivamente derrotados no nosso orgulho coletivo, após uma primeira vaga debelada com sucesso reconhecido internacionalmente; justamente quando a nossa opinião pública, qual cata-vento, já se indignava pela humilhação de termos passado de bom aluno a “pior país do Mundo” no combate à pandemia; justamente depois das vigarices com vacinas (residuais e que estão a acontecer em todos o países), da discussão demagógica sobre se os titulares de cargos em órgãos de soberania devem ou não ter prioridade na vacinação (claro que devem) e do fait-diver de os únicos espaços autorizados a vender livros serem as grandes superfícies (num país que nem sequer lê)… Justamente depois de passarmos por tudo isto, chegamos ao quimérico ponto de podermos pensar, com os números de mortes a diminuir e os índices de vacinação a aumentar, que talvez este possa mesmo começar a ser o princípio do fim da pandemia. Mas, o que pensar, ou fazer, quando, passados apenas alguns dias sobre o alívio desta mortandade, já se levantam vozes a clamar pela reabertura das escolas…? E já a partir do início de março…? Talvez que a única coisa que devemos desconfinar, e de uma vez por todas, é o bom-senso.

 

Ricardo Simões

Diretor Artístico do Teatro do Noroeste – CDV