Herberto Hélder, considerado um dos maiores poetas portugueses, em 1994, assumindo uma prática que desde sempre cultivara, recusou-se a receber o Prémio Pessoa, que lhe foi atribuído pelo jornal Expresso. À época, tratava-se de um valor de 7000 contos, que provavelmente muita falta faria ao poeta, já que a poesia não proporciona rendimentos de relevância, apesar do Herberto ter exercido outras atividades para além da escrita poética. Mas se tinha como princípio renegar prémios, este também o rejeitava. “Esqueçam que me deram conhecimento do facto e atribuam-no a outro”, disse aos escritores Clara Ferreira Alves e António Alçada Baptista, que para o efeito o visitaram.

Perante uma quantia de tal dimensão serão bem poucos os que assim se assumem. Diferentemente pode acontecer com agraciamentos que não vão além de um diploma acompanhado de medalha, tanto mais que estes caminham rapidamente para a vulgaridade. Miguel Sousa Tavares vem dizendo que estamos a chegar ao ponto de em cada família portuguesa haver um comendador. E que, desta forma, a deferência se deprecia permanentemente. Afirma mesmo que mérito é não ter condecoração alguma. Mas os excessos não são de agora. Já António Aleixo (1899/1949) escrevia: “Condecoro o Presidente…/e sabem por que razões?…/por ter posto a tanta gente/tantas condecorações!..”

Pessoalmente considero que as comendas, desde que feitas com equidade e de forma fundamentada, estabelecem pedagogia e fomentam a cidadania no seu melhor. O pior é quando tudo se inverte e estas se mercantilizam. Viana também atribui desde há vários anos títulos a cidadãos que se julga serem merecedores deles. Não vou por em causa a excelência de quem foi agraciado, até pelo respeito que tenho por aqueles que conheço, muitos deles meus amigos. Mas há incongruências que retiram todo o brilho a homenageados que dos títulos são merecedores, quer se trate de personalidades, quer de instituições, criando um certo mau estar de que tantas vezes nos vão dando conta as redes sociais.

Para tudo há soluções e, para este fim, estas estão desde há muito tempo concebidas.

Faça-se o que em qualquer parte do mundo se pratica, que é constituir uma comissão composta por gente capacitada, idónea e respeitada que, na base de regulamento próprio e mediante propostas a si endereçadas, quer de grupos de cidadãos, quer de instituições, se encarrega da tarefa. Assim se acaba com suspeitas de favores e se honra mais facilmente o talento de quem se homenageia.
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