O sr. Carlos dos Reis, advogado de formação, chevalier de l’Ordre National du Mérite e presidente adjunto de uma Câmara Municipal em França    como gosta de ser conhecido  -,   teve a gentileza, a propósito do meu artigo intitulado “Irracionalidade política”, publicado na edição do Aurora do Lima de 28/04, de me endereçar umas farpas em carta aberta dirigida ao sr. Director deste jornal, na edição de 12 do corrente mês de Maio, procedimento, aliás, que repete, visto que no passado já o fez pelo menos duas vezes, uma das quais em termos grosseiros. E embora eu nunca tenha reagido, é, agora, chegado o momento de lhe devolver os cumprimentos.

Refere, o senhor, que não me conhece, e tem toda a razão, porque nunca nos cruzámos, embora eu resida na cidade de Viana há quarenta e três anos, a que acrescem mais quatro vividos em Valença. Para sua informação, dir-lhe-ei que estou reformado desde 2005, após o que entrei na política local activa, tendo sido deputado municipal efectivo durante oito anos, na Assembleia Municipal de Viana do Castelo, mais quatro anos como suplente, entre 2009 e 2017. Quando jovem, também passei pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em meados da década de sessenta, tendo, contudo, seguido outra trajectória profissional após o cumprimento do serviço militar.

Vamos, então, às farpas. Ao contrário do senhor Carlos dos Reis, que usa um eufemismo para mitigar a fuga ao cumprimento do serviço militar – usa a expressão ter-se refugiado em França por causa da guerra em Angola  -,  eu prezo-me de ter cumprido o meu, com orgulho, tanto aqui no continente, como no Norte de Angola. Dei ao país 42 meses da minha juventude e não estou arrependido. Hoje faria o mesmo, se necessário fosse. Portanto, a grande diferença entre nós, é que não fugi para França, não desertei, não me acobardei, não reneguei o meu país e não tive medo de cumprir o meu dever como cidadão responsável. E enquanto que o senhor ostenta uma condecoração da República Francesa, certamente merecida, eu contraponho-lhe duas medalhas de mérito com que fui condecorado: – uma de mérito militar, concedida pelo Exército Português, e outra de mérito fiscal., concedida pelo Ministério das Finanças. Ambas me enchem de orgulho pelo significado que encerram.

Satisfeita parte da sua curiosidade, e indo à matéria que interessa para o caso, mantenho a convicção de que estamos perante uma irracionalidade política por parte dos líderes dos países ocidentais, na sua relação com a Ucrânia e Federação Russa, por duas razões principais:  ao enviarem material de guerra sofisticado às toneladas para a Ucrânia, estão a alimentar o conflito armado em curso, gerando ódios cada vez mais fortes, provocando mortes de inocentes e destruindo bens públicos e particulares. Ao isolarem a Federação Russa do convívio internacional com toda a espécie de sanções, os países ocidentais estão a cavar a desgraça dos seus próprios cidadãos, que sofrem, já, graves consequências, mas que serão incomparavelmente mais gravosas, considerando que este conflito poderá levar ao emprego de armas NBQ. E, aí chegados, já nem tempo existirá para arrependimento!

É por isso, repito, que os países ocidentais deveriam investir na diplomacia, de forma a sentar à mesa de negociações os dois líderes em confronto. Se a Ucrânia cedesse território das chamadas repúblicas separatistas de maioria russa, cujas populações rejeitam ser ucranianas, não me venha dizer que não haveria um caminho para a paz. Haveria, certamente, e ambos os contendores poderiam sair do conflito com honra, no respeito por um princípio básico da estratégia. Enquanto os países ocidentais forem impulsionados pela cegueira e continuarem a engordar o conflito com armas e todo o tipo de apoio militar à Ucrânia, acredito que os russos poderão, em desespero, desencadear uma estratégia total. Para que serve o G-7 e outros G’s? Não será para exercerem as suas concepções de poder, enquanto países mais ricos e poderosos do mundo?

Não defendo, de forma nenhuma, a Federação Russa e o sr. Putin, que o sr. Carlos Reis apelida de maquiavélico, mas também não concordo com o sr. Zelensky, quando verbaliza que não cederá um milímetro do território ucraniano, porque, ao reagir deste modo, não só não respeita o sentimento de algumas comunidades pró-russas, como não dá oportunidade à paz. Sendo ambos teimosos e com posições extremadas, só a diplomacia terá capacidade para promover um acordo de paz, ou, então, quando um dos contendores estiver completamente aniquilado. Sabe o que dizia Napoleão Bonaparte? Que “com constância e tenacidade obtém-se o que se deseja; a palavra impossível não tem significado”. Ou, ainda, Donald Trump, quando refere que “a persistência é a diferença entre o sucesso e o fracasso”.

Tenho para mim que os líderes ocidentais e da OTAN, ao insistirem no isolamento e na humilhação da Federação Russa, estão a projectar um inferno nuclear que deixará metade do mundo em chamas. Oxalá esteja enganado, mas este é o cenário que me parece cada vez mais provável.

Antes de finalizar, dir-lhe-ei, sr. Carlos dos Reis, que, na minha condição de homem livre, falarei sempre daquilo que entender, a minha “prosa” é o que é e vale o que vale, tal como a sua. Escrevo o que penso e penso como escrevo, e, a julgar por alguns ecos que vão chegando, a minha “prosa” é avaliada pela seriedade. Aceito de bom grado a crítica, quando é construtiva, mas não aceito supremacia moral de quem se julga mais que os outros.

N.R.: O autor não segue a regra do Novo Acordo Ortográfico.